Uma a Ser Vivida

                                PREMONIÇÃO      

          Noite alta, acordei com os cães uivando com um lamento profundo, fiquei pensativa imaginando o que poderia ser, os animais domésticos tem um poder extraordinário de perceber coisas estranhas no ar, aqueles uivos continuaram por uns três minutos depois se calaram e dormiram, mas eu perdi o sono, pensamentos vinham a minha cabeça, pensei em uma tia que estava doente em SP, depois veio minha prima à cabeça que estava doente no hospital, porem ela não era motivo de muita preocupação, pois eles moram a apenas 300 metros daqui e não comentaram nada de ruim a respeito dela, soubera apenas que iria interná-la em uma casa de repouso assim que tivesse alta. Olhei no relógio eram seis horas da manhã, levantei-me a contra gosto, pretendia ficar um pouco mais na cama, mas algo impulsionava para ir preparar o café, fazer os preparativos para o almoço de aniversário. Abri as cortinas, o dia já estava amanhecendo, nuvens escuras no céu indicavam mudança de tempo, estávamos mesmo precisando de chuva.
         Coloquei a leiteira no fogão a fim de esquentar o leite, bebi um copo de água, costume antigo, desde menina que faço isso, é como escovar dentes. Meus pensamentos insistiam em voltar para madrugada com os cães uivando com um lamento perturbador, preparei o café e depois de colocar os pães sobre a mesa sentei-me para tomar um delicioso café em uma caneca de louça que minha filha havia presenteado no natal, e já eram 8 horas da manhã. Voltei ao quarto e acordei gentilmente meu marido, e pedi para que se levantasse para comprar uns pães na cidade, preguiçosamente levantou as pernas para cima como se fosse um menino sendo chamado a se levantar, ato desagradável se não fosse por uma boa causa, estava ótimo naquela manhã.
       Levantou-se feliz, pois tínhamos combinado com uns amigos que faríamos um almoço para celebrar seu aniversário, uma vez que seus filhos que moram distante desistiram da longa viagem. No entanto comemoraríamos de qualquer  jeito, ele mais que depressa rumou para cidade e lá no supermercado as pessoas começaram a dar os pêsames a ele, no primeiro momento ele achou que era por conta do aniversário, uma vez que estava ficando mais velho sorriu e agradeceu dando tapinhas nas costas, dizendo sorridente que no próximo ano faria 74, foi quando os amigos perceberam que não sabia ainda de nada e contou com detalhes o que havia acontecido.
      A prima que estava no hospital havia falecido de madrugada e o hospital havia avisado a família que providenciasse a retirada do corpo, ele ligou imediatamente para casa e avisou, no primeiro momento fiquei pasma, pensamentos passavam desconexos por minha cabeça e pensei, porque  o meu primo não avisou? Afinal eu sou prima em primeiro grau, e moro praticamente do lado, eles tem que passar inevitavelmente pelo meu portão para irem à cidade. Fiquei em pânico, liguei para minha outra prima que mora em Platina e ela também não sabia de nada,  liguei para o outro primo, que mora em outra cidade e também nada sabia, ficaram tristes com a falta de informação, afinal nós somos da família!
       Meu marido voltou desolado, afinal estávamos esperando visitas, o almoço já estava pronto e as visitas estavam chegando. Pediu-me calma e que fosse discreta nos comentários e almoçássemos, lgo depois com calma pediríamos desculpas e iríamos ao velório às 15 horas. Assim que saíram rapidamente passamos em Platina pegamos minha tia de 88 anos com minha prima e fomos ao velório, estavam todos lá, um apos um, todos lá, todos conversavam animadamente, e ela jaz no caixão parecia mais uma criança, o longo sofrimento de abandono, desprezo, humilhação transformaram-na em uma pessoa pequena e frágil. Agora com a rigidez da morte parecia uma pessoa tranqüila, que nunca tivera um problema sequer, impassível no caixão parecia mais frágil ainda, observei que seu ex marido que relutou em visitá-la ainda viva estava lá com sua atual esposa, pessoas que ignoraram sua presença em vida, e durante sua separação e solidão estavam lá, fiquei transtornada com tanta hipocrisia, é assim que tratam seus familiares? Pensei! Saí e fiquei andando de um lado para o outro, segurando para não ir lá e dizer tudo o que sabia a respeito do que fizeram com ela, mas o bom senso e a educação, hábito que procuro ter em momentos de ira, fizeram que eu mantivesse minha calma, pois estava a ponto de explodir de indignação.
        Voltei no tempo quando se casou e construiu uma casinha de madeira perto do açude, ficou perto da mãe e do pai, mas sempre teve um temperamento difícil e não sei ao certo, mas um dia decidiu ir para outra região para trabalhar na lavoura, poderia ter ficado no sitio, pois tinha terras em abundância para trabalhar. O marido era um homem muito trabalhador, nasceram ambos no sitio, mas depois de certo tempo e conselhos  de amigos, mais uma vez mudaram-se para uma cidade maior, sua pequena casa de madeira construída perto do açude fora derrubada por seus familiares, e não tendo como voltar para o sitio que sua mãe herdou da sua família materna, sem alternativa seguiram para a cidade, onde pouco tempo depois uma tragédia abateu-se sobre o casal, sua única filha faleceu de morte súbita. 
                                                 
A   DOENÇA
         Desde então, com a morte da sua única filha, seus problemas de saúde pioraram, andava nervosa, abatida, nada estava bom. A alegria de sua vida foi-se com sua pequena filha e não mais poderia ter filhos, toda a sua amargura  voltou-se para o marido, homem bom e tranqüilo, tinha paciência com ela, a ponto de muitas vezes depilar as pernas com barbeador, tamanha dedicação que nutria, mas a doença mental, que hoje chamamos de depressão piorou, e a ida aos médicos era constante. Acharam por bem mudarem para SP, quem sabe se distante da casa, do cemitério, do túmulo onde sua filha fora enterrada, e que hoje faz companhia, pois sempre desejou ficar ao lado da filha quando falecesse, ultimo desejo atendido, lhe fizesse bem.
         Sua tia ficou muito contente com a presença dela e do sobrinho, retribuindo sempre as visitas, mas a distancia não lhe fizera bem, agora um novo desgosto para ela, estava longe da filha, além de perdê-la, agora não podia visitá-la com freqüência, dedicação mórbida por ambos, mas a vida continua,  ele começou a trabalhar em uma indústria e a vida melhorou , compraram um terreno onde construíram uma pequena casa, porem muito confortável, e viviam bem, mas a casa no eterno abandono de uma pessoa sem vontade própria, expectativa e ânimo, louças pelo chão, panelas, roupas por lavar e os remédios psiquiátricos fortíssimos faziam-na dormir e ficar meio abobada. Começou a desmaiar todo momento, e isso transformou a vida do marido um verdadeiro pesadelo, ficava horas fora, trabalhando e ela só, sujeito a qualquer momento encontrar a casa em chamas, vivia completamente dependente de seu esposo, jamais saia só ora ou outra alguém ia visitá-la o que era muito constrangedor, por conta da bagunça e sujeira, não por descuido, mas por conta da doença que a cada dia deixava-a com um aspecto deprimente, a coisa mais agradável que acontecia era que nas festas natalinas eles iam à rodoviária e voltavam à terra natal para visitar a família e pintar o tumulo da filha, trocar as flores de plásticos por novas e ascender velas e ficar ali arrancando um matinho que porventura estivesse atrapalhando a beleza do mesmo. Enquanto isso o marido passeava tranquilamente entre as lapides , olhando os nomes e admirando a beleza dos anjos nos túmulos mais antigos e por vezes ela acompanhava neste passeio e  gostavam de comentar a visita ao cemitério como se fosse uma coisa das mais esplendidas que fizeram.
         Acho que ele alimentou esta morbidez por tempo demasiado, poderia ter  internado numa clinica para fazer um tratamento psiquiátrico, levá-la  a um psicólogo, a fim de ajudá-la a superar o trauma, as festas natalinas na casa dos seus pais sempre foram muito animada, havia muita coisas e pessoas amigas, que tinham o hábito de fazer as refeições do natal e ano novo, e assim mais um ano se passou.     
                                        VIAGEM NO TEMPO  
     Estava no saguão do hospital aguardando à hora da visita, neste momento entrou um primo e foi até o balcão pedir informações e voltou para olhar se havia cadeiras desocupadas, e viu que nós também estávamos esperando, caminhou em nossa direção e nos cumprimentou, ficamos falando sobre como havia acontecido à internação e quem a havia trazido ao hospital, eu disse-lhe que a mulher que levava o  remédio pela manhã a chamou, mas ela não atendeu a porta, voltou para casa e foi fazer seus afazeres diários e quando percebeu que ela não havia saído, ligou na padaria onde todas as manhãs ela tomava o café e ninguém a havia visto,  já era quase hora do almoço, ligaram para o restaurante que enviava as refeições para ela e eles também disseram que nada sabiam, tentaram se comunicar com familiares no sitio, e eles também não sabiam de nada, fizeram inúmeras ligações e o telefone não atendia, já era tarde e nada, seus parentes do sitio responsáveis por ela, moram a quarenta quilômetros de distância, bem longe, e eram os responsáveis em receber a aposentadoria, pagar o restaurante onde se alimentava trazer ração para os gatos, levar água potável, comprar remédios, levar ao médico e isso era feito uma vez por semana na sexta feira onde o sobrinho aproveitava para negociar e visitá-la, e eventualmente comprar algo, já que ela sendo uma pessoa dependente, sem nenhuma tendência em recuperação do seu estado de saúde não poderia viver só em uma casa longe da família; No entanto não a queria por perto, mantendo-a dentro da casa, sem assistência de uma cuidadora, o que era imprescindível, já que ela tinha mais de setenta anos, sem filhos e com dois sobrinhos que poderiam tê-la amparado, já que ela possuíam muitos bens, sendo uma pessoa independente financeiramente. Mas não foram lá de imediato, mesmo sabendo que ela tinha problemas psiquiátricos, que sofria desmaios, e que não poderia em hipótese alguma ficar sozinha, trataram de seus afazeres e ligaram para o ex marido que mora a uma quadra da casa e este se recusou a entrar. Então chamaram os bombeiros que trouxeram o chaveiro, e daí então encontraram aquela cena dantesca dentro da casa, ela estava desmaiada há horas e já tinha feito as necessidade fisiológicas nas roupas, com o rosto retorcido, os bombeiros sem uma pessoa da família para se responsabilizar por ela, uma vez que seu ex marido morando uma quadra distante, não tomou nenhuma atitude, carregou-a até o resgate com seus pertences pessoais, e levou-a ao pronto atendimento, até então ninguém da família estava lá para recebê-la no hospital, foi imediatamente para o Centro de terapia intensiva, então os médicos comprovaram o AVC e uma forte pancada na cabeça, com uma mancha roxa no lado direito do crânio. Deduziram que ela teve o AVC, caiu e bateu a cabeça no chão e desmaiou onde ficou mais de 5 horas abandonada a própria sorte, só depois de 24 horas poderia ser avaliada para ver como se comportaria a evolução da doença.
          Cheguei horas depois da internação, como fui à última a saber, mesmo morando do lado à apenas 300 metros de distância de seus parentes responsáveis, uma vez que sou prima em primeiro grau, mantiveram-me afastada e absolutamente sem noticias, fui avisada por uma pessoa da cidade e só assim fui ligando para um e para outro, comunicando o acontecido.
         Ela ficou neste estado muitos dias, entre melhoras e piora, porém na sexta feira quis ir visitá-la, mas foi dito que ela não estaria mais no hospital, que seria levada para uma casa de repouso, e que depois todos teriam oportunidade de visitá-la, mas na verdade ela estava em estado de coma, e fui privada de ir vê-la.

         À noite  meus pensamentos iam e vinham a todo o momento, estava menos preocupada porque sabia que já estava na casa de repouso, e lá teria todos os cuidados necessários para tocar a vida. Fui dormir com maus pressentimentos, enquanto isso meditava sobre todo o acontecido e soubera por um amigo que a família estava pagando uma mulher para passar a noite com ela no hospital, mas durante o dia ela ficava só no, fato não permitido para pessoas com  mais de setenta anos, recebendo visitas só na hora estabelecida pelo hospital, o que achei estranho é que quando fui visitar, perguntei a moça encarregada da visita se ela tinha acompanhante durante o dia, que constava na folha de visitas, porem quando cheguei lá no quarto de enfermaria, os acompanhantes das outras pacientes disseram que a moça só estava vindo à noite, como a esposa do sobrinho que ficara encarregada de contratar e fazer o pagamento da acompanhante achei estranho este fato.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

AGRADECIMENTOS A TODOS OS MORADORES DE PLATINA-SP- BRASIL

Crônica - Primavera uma estação de mudanças.

O ARMAZEM DE MANOEL GOMES DE MEDEIROS