Crenças e Supertições
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1º Capítulo
O
cavalgar tranquilo, passos suaves do animal subindo a montanha, era uma estrada
coberta por uma neblina, mas tanto o homem como o burro estavam acostumados com
aquela marcha lenta, os mil metros de altitude levaria dias para subir até sua
pequena cidade no topo da serra, pararia por horas em uma cabana na beira da
estrada para descansar seu animal, lá teria água e uma boa cama para repousar, e
com um pouco de sorte poderia encontrar algum companheiro de viagem. Havia
descido a serra para comprar umas vacas de leite em uma fazenda lá para as
bandas de Cruzeiro, e depois de dois dias voltava satisfeito com a compra, o
fazendeiro ficou de entregar as vacas em 15 dias, logo depois que passasse a
chuvarada e a neblina, que tornava a estrada escorregadia, era umas vacas
bonita, gado holandês é sempre muito fértil e dava muito leite e a região de
Itajubá era tradicional em fazer queijos de boa qualidade. Prudêncio era um homem daqueles
mineiros antigos, não gostava de muita graça e por qualquer coisa já puxava a
garrucha e queria atirar, dizia que já havia matado gente por aquelas bandas, a
fama dele era de ser um homem duro e sem coração, tinha um bigode escuro e
comprido e tinha o hábito de torcer a ponta quando estava pensando, isso já era
um bom motivo para não dar trela a ele. Seus seis filhos não viam à hora de
completar maioridade para sair de casa, tamanha a ignorância do pai, sua mulher
Maria era a paciência em pessoa, mulher calma, tranquila, demorava a pensar e
quando falava era sempre em tom conciliador, e assim Prudêncio por mais que
falasse ela não comprava a briga e ele desanimado tomava um bom gole de
cachaça, ascendia seu cachimbo e ia fumar em baixo de uma figueira que ficava
mais embaixo da casa. Essa
figueira tinha muita estória para contar, ficava em um lugar estratégico na
fazenda. Prudêncio observava a cadeia de montanhas da Serra da Mantiqueira,
podia se ver um simples cavalo pastando ao longe, uma vaca perdida em algum
atoleiro, um animal tentando pegar algum bezerro e era também seu lugar
preferido. Porém naquele momento estava longe, e desejou estar em casa para
comer um arroz com lingüiça, farofa e um belo refogado de couve, mas tudo o que
tinha para comer era uma farofa e um pouco de feijão. Achou que ia demorar em
chegar à cabana e estava com fome, mas se parasse o seu burro empacaria ali e
não havia quem tirasse ele do lugar, melhor era seguir devagar afinal burro é burro,
tem que acabar a subida. A neblina melhorou e logo avistou a cabana, uma mulher
saiu na porta e gritou que iria por água no feijão que estava chegando gente.
2º
Capítulo
A HOSPEDARIA
A
hospedaria era a única na subida da Serra, a dona morava com o marido e recebia
viajantes que atrasavam com o tempo ruim, os negócios eram melhores no inverno,
a freguesia era melhor, ninguém acabava de subir a serra com os fortes ventos
que soprava sem parar na pousada, sobretudo o frio era de queimar a boca, a
pele daquela gente era vermelha pela intempérie do tempo que sempre fora cruel
com os serranos. Mas Prudêncio era tão rude que nem se importava com isso,
nasceu e cresceu subindo montanhas e aquilo fazia parte do seu dia a dia.
Comeu, bebeu com os companheiros de pousada e escutou muitas estórias de vozes
chorando e pedindo socorro, e ele sentiu um calafrio que arrepiou os pelos dos
braços e achou por bem ir deitar-se, pois pretendia sair ao amanhecer se a
neblina não atrapalhasse. Sua mulher Maria ia ficar preocupada com a demora e
ele não gostava de mulher faladeira. A noite custou a passar, o barulho do
vento parecia que alguém gemia, ora era o vento que falava num som triste de
alma penada, e ele não pegava no sono, quanto mais o vento soprava mais
desalentador a noite ficava, e ele torcia para que aquela noite acabasse e
prometeu que na pousada não dormiria mais, era mal assombrada. No dia seguinte
quando chegou ao balcão do bar, perguntou ao viajante como tinha sido à noite e
todos responderam a uma só voz. O vento, as vozes e as mulheres chorando não
deixaram ninguém dormir. A dona da pousada garantiu que pediria ao padre que
viesse benzer o lugar, pois a duas léguas dali caiu um carroção puxado a bois e
uma família inteira morreu na ribanceira. Todos ficaram calados pensando na
tragédia e seguiu cada qual o seu destino incerto naquelas bandas. Prudêncio
acabara de subir e a noitinha chegou ao sitio de sua propriedade, ninguém veio
recebê-lo, seus filhos já tinham jantado e sua mulher lavava as panelas numa
tina de madeira e colocava para secar em uma bacia de alumínio. Ele entrou e
não cumprimentou ninguém, homem de poucas palavras, disse ao filho mais velho
num tom ríspido que fosse tratar do burro enquanto se lavava para jantar, Maria
esquentou a janta em um fogão a lenha que ficava no canto e mantinha as brasas
acesas para esquentar a cozinha, a casa era de pau a pique feita com bambu e
rebocada com barro, tinha um arvoredo em volta deixando o lugar mais frio
ainda. Sua mãe em uma visita no último dia de finados reconheceu como Maria
vivia com um homem como aquele, pensou no mal que tinha feito a filha permitindo
o casamento, mas agora não havia mais jeito, era só esperar a boa morte que a
libertaria daquele castigo.
Depois
da janta, Prudêncio sentou em um banco baixo de madeira, pegou uma viola que
fora do seu falecido pai e dedilhou uma música sertaneja raiz, único momento em
que via aquele homem com cara boa, e um breve sorriso aflorou em sua boca
mostrando a falta de três dentes e um de ouro que mandou fazer a muitos anos e
tinha orgulho. Maria estava ali ouvindo e esperando a hora que ele apagasse a
lamparina e fosse dormir. Era uma casa pequena e baixa, tinha três quartos pequenos
onde havia camas e um velho baú, no quarto de Maria tinha uma cama de casal e
um guarda roupas antigo de duas portas que Prudêncio trouxe no casamento, e era
usado para guardar algumas peças de roupa. E era tudo, as meninas estavam
crescendo e Prudêncio já estava pensando com quem ele ira casá-las, conhecia
muito homem bom na região e haveria de encontrar um bom para elas. Mas Maria
sua esposa não pensava assim, achava que tinha que ir embora com os filhos,
Prudêncio não os encontraria, e arrumaria emprego em alguma fazenda lá para as
bandas de Três Corações, terra do falecido seu pai e tinha parentes por lá,
diria que Prudêncio havia morrido e ela sem saber bem o que fazer foi procurar
trabalho por lá. E essa idéia foi crescendo na sua cabeça e sonhava já com o
plano e quando sua menina Marisa ficou menstruada, Maria escondeu de
Prudêncio, era a chance de ele arrumar marido para a menina. Esperou Prudêncio
marcar uma viagem longa , quando saiu disse que não sabia quando voltava, ela
chamou os filhos e disse o que pretendia, e se eles concordassem eles iria
embora ao outro dia, daria tempo de Prudêncio começar a descer a Serra e eles
estariam bem longe, os meninos concordaram, mas não tinham dinheiro para ir
embora, ele disse que tinha guardado um pouco da vendas das galinhas e dos
bordados que fazia com as meninas e dava para chegar bem longe.
3º
CAPÍTULO
A FUGA
Arrumaram
a carroça com dois cavalos bons que tinha no sitio, fez uma comida para comerem
na estrada, pão para muitos dias e às 4 horas da manhã antes do galo cantar,
eles pegaram a estrada em sentido contrario ao de Prudêncio, viajaram o dia
todo e pararam para descansar numa clareira a beira da estrada, os pelegos dos
animais serviram de colchão e passaram a primeira noite de suas vidas livres da
escravidão que Prudêncio impunha a sua família. Maria não dormiu, pensando em
fugir, escutou uma coruja cantar bem perto e como era supersticiosa levantou
depressa chamou os filhos que esfregaram os olhos subiram na carroça e viajaram
por mais um dia, avistaram um sitio com uma casa saindo fumaça da chaminé e
sentiram vontade de tomar café quente e uma caneca de leite, ouviram os cães
latindo e resolveram chegar, e sabendo do acolhimento do povo mineiro e da
vontade de ficar um dia descansando animou a família bateu palmas e chamando
alto, um Sr apareceu na porta perguntando quem era e Maria mais que depressa
disse que estavam viajando e viu uma luz na casa, uma fumaça na chaminé e
resolveu chegar, ele convidou para entrar e desconfiado olhou aquelas sete
pessoas, coçou a cabeça e disse que podiam passar a noite ali, arrumou um pouco
de leite e pão que tinha sobre o fogão, um café fraco e muito doce, então
depois de uma prosa ligeira se ajeitaram como puderam e foram dormir.
Maria e os filhos dormiram na hora de tão
cansados que estavam, e quando acordaram já era dia velho. Joaquim o dono do
sitio chamou os meninos para ajudar na ordenha das vacas, as duas meninas e
Maria ajeitaram o café e quando o leite chegou todos muito acanhados comeram e
se fartaram com um queijo que Joaquim tinha no armário embrulhado em um pano de
prato. Joaquim começou uma conversa longa e demorada querendo saber o que tinha
acontecido, porque viajavam sozinhos e onde estava marido de Maria. Todos
abaixaram a cabeça sem saber o que dizer Maria nunca havia mentido antes, nem
sabia inventar uma história, seu menino era tímido, estavam mudos de medo que
seu Joaquim os mandasse de volta, logo Maria começou a contar toda a história
de sua vida, o nascimento das crianças e a fuga do marido, alertou Joaquim que
morreria, mas não voltaria para casa. Joaquim ouviu calado a conversa e viu as
lagrimas no rosto daqueles rapazes disposto a ajudar a mãe numa fuga longa,
ficou de pensar e daria uma resposta a noite. Maria ficou apavorada, não
pretendia ficar nem mais um dia ali, pois ia atrasar a viagem. Mas Joaquim
insistiu, pediu a ela que fizesse o almoço e a janta e depois eles conversariam
novamente. Os filhos gostaram da idéia, era um lugar diferente de onde viviam,
não havia mais serra, só verdes colinas que não acabavam mais, o chiqueiro de
porco estava cheio de leitões prontos para vender e uns bois pastavam no pasto
em volta da casa, era uma casa de madeira boa com uma varanda na frente de
assoalho muito bem cuidado, nunca estiveram em uma casa simples, porém acolhedora
como aquela estranhou que seu Joaquim não havia falado sobre sua mulher e eles também
não perguntaram.
4º
CAPÍTULO
NOVO RECOMEÇO
A
noite chegou e depois da janta Joaquim disse que se eles quisessem serviço ali
tinha para todos, os rapazes iram trabalhar na lavoura de meia com ele e as mulheres
tratariam das galinhas, da ordenha das vacas e fariam o queijo que revendia na
cidade, eles ficaram sem voz, era uma coisa boa, mas Prudêncio viria atrás
deles e ele mataria todos. Joaquim muito calmo disse para terem calma que aí
ele não iria encontrar, ficariam escondidos por três meses sem sair do sitio,
era o tempo de Prudêncio ir até Três Corações, voltar e ninguém saberia do
paradeiro deles, haviam sumido como o pó da terra. A idéia agradou a todos,
Tonho o mais velho dos meninos perguntou:
-E
sua mulher o que vai achar de nós aqui arranchados na casa?
Joaquim com um sorriso maroto disse que sua
mulher havia morrido fazia dois anos, que não tinha filhos e era difícil um
sobrinho aparecer por ali, só quando estavam precisando de dinheiro a juros,
mas ele ia visitar assim eles não correriam risco de serem vistos. Deu tudo
certo, a viagem chegou ao fim, começaram a lavrar a terra e a vida de Joaquim
melhorou, os queijos feitos eram ótimos e depois de alguns meses, começaram a
freqüentar a escola rural do município, a vida estava ótima. Maria costurava
bem e logo pegou roupa das mulheres da cidade e começou a ganhar seu próprio
dinheiro, as meninas eram dedicadas e ajudavam a mãe a pregar botões e barras
nas calças, a vida não podia ser melhor para eles. A cidade de Carmo era
pequena mas ajeitada, tinha tudo o que precisava para as costuras e o que
faltava Joaquim trazia de São Lourenço. Assim Maria pouco saia de casa, era por
natureza uma mulher caseira e as meninas seguiam o ritmo da mãe.
5º CAPÍTULO
MORTE DE PRUDÊNCIO
Certo dia Joaquim chegou da cidade com as compras e perguntou a Maria
como era o nome de seu marido, ela disse com muito medo que era Prudêncio de
Souza, então Joaquim disse que poderia ficar tranqüila, pois ele havia falecido
em uma briga no bar de Itajubá, puxou o revolver para um homem no bar e depois
do tiroteio Prudêncio morreu baleado, a noticia saiu no jornal da região e
estão procurando a família para resolver os documentos do sitio, Joaquim disse
que iria a Itajubá assuntar isso direito antes de mandar Tonho ver os
documentos. Dias de muito nervosismo no sitio de Joaquim, os filhos choraram
pelo pai e Maria decidida disse que Prudêncio achou o que procurava, acabou
morto em um bar e agora estava viúva e estava muito bem, trabalhando, os filhos
estudando e não queria nem saber de sitio que só trazia lembranças ruins, então
pediu que deixassem passar um tempo depois eles veriam o que fazer. Joaquim
estava com pressa queria se casar com Maria e tratou de resolver esta questão,
foi até Itajubá, e procurou o bar onde disseram que havia acontecido o crime e
o vendeiro disse que era um homem que a mulher havia abandonado e ele procurou
na região, não encontrou mais a família e deu para beber e brigar até achar o
caminho do cemitério.
Joaquim depois da prosa foi até o cartório e pediu um atestado de óbito do
falecido, aproveitou e deu uma chegada até o sitio para ver se valia alguma
coisa, estava abandonado, o mato tomava conta do lugar, entrou na pequena casa
onde Maria viveu e pensou na pobreza que ela vivia com os filhos, desceu e viu
a serra linda com seu penhasco e teve medo, fechou a porteira que já estava
quase caindo e, foi embora. Passou em
Itajubá e encontrou um homem que negociava sítios na região, pediu que vendesse
o sitio de Prudêncio disse-lhe ainda que era parente do falecido e quando
achasse comprador avisasse o mercado da cidade onde morava que ele ficaria
sabendo. Chegou ao sitio tarde da noite e todos estavam acordados cheios de
preocupação, quando entrou na casa, abraçaram Joaquim com carinho e quiseram logo
saber por que demorou tanto, Joaquim retirou o documento do bolso e disse que
era o atestado de óbito de Prudêncio, que foi até Itajubá saber toda a verdade
e resolver esta pendência. Os filhos mesmo não gostando do pai choraram muito,
e depois lá pelas tantas da madrugada vencidos pelo cansaço dormiram. O galo
cantou de madrugada, mal havia deitado, Joaquim levantou e disse para Maria
fazer o café que ele ia tirar leite e depois ia ter um dedo de prosa com todos,
um olhar de preocupação por parte de Maria que não havia dormido direito. Naquela
noite quando Joaquim voltou da mangueira com os baldes de leite, sentou em um
toco na porta da cozinha e começou a fazer um cigarro de palha, e assim que os
rapazes entraram ele foi até o fogão à lenha pegou uma brasa com uma colher de
ferro e acendeu o cigarro, deu duas pitadas para ascender bem e começou uma
prosa lenta. Falou que eles estavam ali já fazia mais de seis meses, que eles
tinham gênio bom de lidar e as meninas eram uma doçura de educadas, já estava
matutando a algum tempo de se ajuntar com a Maria mãe deles e agora que
estava viúva ele estava com intenção de casar com ela no papel e se todos
consentissem ele iria até a cidade ver isso no cartório. Todos estavam de boca
aberta de susto, começaram a rir e Maria com um olhar firme fez com que os
filhos abaixassem a cabeça e disse que aceitava, pois já tinha se acostumado
com o jeito de Joaquim e como Prudêncio estava morto ela não tinha mais medo
dele aparecer por lá e matar todos. E se Joaquim quisesse casava hoje mesmo, Joaquim
ficou tão animado que jogou o cigarro de palha fora, deu uma boa cuspida no
quintal e disse para ela arrumar a roupa que iria dar os nomes no cartório.
6º CAPÍTULO
JOAQUIM
E MARIA
Montaram no Fusca ano 64 de Joaquim e foram para a cidade, Maria havia
engordado um pouco, estava bonita como ela só, sua pele antes castigada
pelo frio da serra deu lugar a uma pele rosada, cabelos cortados e um vestido
novo, franzido na cintura estava faceira. Na cidade de Carmo todos
olharam o carro entrar na rua principal e ir direto para o cartório, os fuxicos
começaram na cidade. Meia hora depois todos já sabiam que Joaquim ia se casar
com a Maria e o quanto estava louco, casar com uma mulher com seis filhos
adultos, isso não ia dar certo, mas o Padre Serafim apoiou o casal e disse que
faria com muito gosto o casamento. Achavam que logo iria sair outro casamento
na casa, então Joaquim e Maria inocentes perguntaram de quem, o Padre Serafim
afirmou que seu filho mais velho estava de prosa com uma moça filha de Maria da
sua igreja, moça de boa família e ela já havia comentado com a mãe que estava
gostando do rapaz. Foi uma alegria para todos e seguiram rumo ao sitio agora já
como se fosse da família.
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