Crônica - Província de Platina
Todos os preparativos estavam prontos para
o casamento. Manoel como sempre estava confiante, era o dia do seu casamento
com Lina e já havia passado a ferro e brasa seu único terno de linho branco;
seu sapato preto havia sido engraxado e escovado, a barba havia feito no dia
anterior, e cortou o bigode do jeito que gostava. Era um homem magro de porte
atlético, por conta do serviço bruto que executava músculos bem definidos que
causaria inveja nos tempos atuais.
Olhou no pequeno espelho, seu rosto
muito branco estava bronzeado por conta do sol escaldante da região, seus belos
olhos azuis combinavam com um olhar indagativo próprio de quem tem sempre
pressa, por fim gostou do que viu! Afinal estava quase tudo pronto para
seu segundo casamento, era viúvo fazia quatro anos e tinha um filho de seis
anos para cuidar. Depois de uma pequena procura acabou por encontrar uma jovem
que era do seu gosto, ainda com roupa de trabalho saiu à porta da casa de
madeira, que anteriormente fora um paiol de milho, e quando abriu à porta um
vento frio de outono bateu no seu rosto, recuou um pouco para aguentar a
friagem no pasto, olhou mais atentamente e viu os dois cavalos, e com um
assovio longo chamou-os, Manoel com um sorriso desceu as escadas para pegar os
cavalos.
O frio naquela manhã de maio de 1939 era intenso, o gramado
em frente a casa agora bem descuidado por falta de uma esposa, chamou a atenção
de Manoel, pensou que bem que poderia ter dado uma boa capinada em frente da
casa, mas agora era tarde demais, estava atrasado e ansioso. Correu para o
curral, colocou cela nos dois animais, uma cela feminina, pois naqueles tempos
a mulher sentava de lado sobre o arreio, lembrou na ultima hora que não havia
limpado o arreio feminino, e Lina viria vestida de noiva, ficou irritado com
isso e praguejou, mas não havia jeito tinha que limpar, pois era de sua
falecida esposa e a muito não havia sido usado, ainda praguejando limpou,
terminou aquele último serviço antes de sair do sítio de sua propriedade na
água do Barreiro. Subiu as escadas do velho paiol, olhou atentamente sobre o
fogão o frango que havia matado logo cedo, lembrou-se que era de madrugada
quando foi ao galinheiro pegar aquele frango para comer no dia do seu
casamento, a água já fervia no fogão a lenha, e depois de depená-lo preparou os
temperos e deixou sob o fogão. O feijão estava cozinhando, então colocou mais
um pouco de água e depois de verificar tudo, encostou a porta da casa seguiu
cantarolando uma canção antiga de Francisco Alves, seu cantor preferido.
Aquela
estreita estrada que agora percorria sem pressa, foi feita por ele e seus
vizinhos sitiantes, e percorria com orgulho de pioneiro sua obra, estava bem
esburacada por conta de uma chuvarada da semana anterior. Logo o dia viria a amanhecer
como estava bem adiantado, apreciava a mata fechada ao longo do caminho, a
passarinhada cantava, os animais silvestres ora ou outra emitia seus sons
aterrorizantes, tanto homem como animais viviam suas vidas naquele lugar
inóspito do estado de São Paulo.
Logo
avistou o pequeno cemitério da cidade, as poucas casas que havia, estavam
escondidas pelas imensas árvores, mal dava para ver a pequena igreja construída
de madeira no meio do terreno, bem no centro do vilarejo. Manoel seguia
lentamente em direção da igreja e podia se ver um acúmulo de pessoas seguindo
para missa dominical, antes, porém passou no bar na entrada da cidade e deixou
sua garrucha guardada com o vendeiro, uma faca bem afiada, pois não poderia
andar desarmado por aquelas bandas, mas achou que não seria de bom tom casar
armado com uma faca e um revolver. Depois de se desfazer das armas já quase na
porta da igreja, amarrou os cavalos em um palanque de madeira e entrou na
pequena capela, logo viu sua noiva sentada no primeiro banco com toda a
família, atravessou a parte central da igreja e ajeitou um lugar para assistir
a missa antes do casamento. Depois de uma missa longa toda em latim, sem
entender nada do que o padre falava, o casal de noivos seguiu ao altar onde foi
realizado o casamento, ainda tiveram que esperar para assistir alguns
batizados, era a única oportunidade que a comunidade tinha, pois o padre só
vinha de quando em quando naquelas paragens do interior. Manoel antes de dizer
o sim ainda teve um último pensamento, uma guerra acontecia em algum lugar do
mundo e caso fosse convocado estava garantido com uma esposa para tomar conta
de tudo.
Assim que acabou o casamento na igreja, já era
mais de nove horas e todos estavam com fome. Manoel levou Lina e a ajudou
a subir no arreio, então ambos montados em seus animais seguiram para o sitio.
Não havia festa de casamento, eram tempos ruins, uma guerra na Europa assustava
os homens da região, e já começavam a surgir rumores sobre uma guerra mundial.
Manoel naquele momento cavalgando rumo ao sitio pensava na guerra, enquanto Lina assustada
em ter que seguir aquele homem, sendo a primeira vez que saiu de sua casa
desacompanhada de sua mãe. Estava por demais de nervosa, aquele homem com quem
havia casado era um desconhecido, só tinha visto uma vez antes do casamento,
tudo tinha sido arranjado por sua mãe Maria e seu irmão mais velho Joaquim. Era
comum as moças ficarem solteiras caso não arrumasse casamento até os vinte anos.
Lina estava com dezenove, já estava ficando velha para casar, e aquele homem
havia caído do céu segundo sua família. Perdida nestes pensamentos seguia atrás
de seu marido rumo à casa que a partir de agora era sua.
28/ 05 /1939.
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