Minha História


  O  ano de 1929, transcorria com uma calma peculiar da região sudoeste do estado, e Isaque cavalgando em um cavalo baio chegava à pequena cidade, pretendia comprar terras naquela região e soubera através de grileiros que havia muita gente vinda para cá a fim de se estabelecer, e era o que queria naquele momento, havia chegado de sua terra natal, deixado seus pais e irmãos para começar uma nova vida no interior de SP e com grande ansiedade cavalgavam já a passos largos quando avistou a pequena cidade, o pó da estrada havia deixado marcas em suas roupas, e tinha pouco tempo para conseguir um lugar para descansar aquela noite, havia viajado o dia inteiro sem encontrar uma alma sequer ao longo da estreita estrada que ligava o município de Campos Novos, e a mata fechada era assustadora, não acreditava em assombrações, mas ora ou outra seu cavalo bem treinado assustava e queria desistir da viagem, mas ele era um homem determinado, seguia em frente por sorte avistou ao longe uma poeira que levantava e ouvia o barulho do berrante chamando a boiada ele apertou o passo e chegou a tempo de conversar e ajudá-los na  lida com a vacada. O boiadeiro lhe contou que a boiada estava sendo  tocada com destino a Presidente Prudente, e depois de tanto cavalgar com o boiadeiro e  sua  boiada chegou na  Vila de  Piratininga  enquanto a tropa  se arranjava e o gado colocado no curral, conseguiu tomar um bom banho no Rio Pari, e uma janta que um tropeiro de boa qualidade sabia fazer como ninguém, colocou suas traias de viagem  e depois de ouvir muita conversa dos boiadeiros, e ouvir o canto triste de uma viola, contanto as tristezas da vida, logo  arrumou sua capa de viajante de estrada e em seguida, já muito cansado deitou-  se e em seguida pegou no sono.
                                                                      OUTRO DIA
    O canto do galo acordou todos os boiadeiros, que muito depressa ajeitaram o café, para seguir viagem, Isaque agradeceu a hospitalidade dos homens e chegou à cidade, parou em uma venda para saber as novidades, e logo soube que havia um sitio para vender, depois de muita conversa,  contou que estava trabalhando na construção da estrada de ferro Alta Paulista e agora que havia terminado e com o que recebeu estava disposto a comprar uma propriedade rural e pretendia se estabelecer por aqui, e ali mesmo soube que um sitiante estava vendendo um sitio bem perto do pequeno patrimônio, maneira de dizer das pessoas quando se referia a uma pequena cidade não muito prospera, foi até lá e depois de muita conversa acabou por comprar o sitio e imediatamente batizou de Sitio Santo Antonio, era muito devoto do Santo e achou que daria sorte ter por padrinho do sitio um santo tão poderoso, o que se tornou uma mania com o passar dos anos, já se estabeleceu em um paiol velho, única benfeitoria do local.
         Trabalhador como era, começou a arrumar cercas e plantar um pomar, cultivar milho, algodão, café, teria com certeza um gado, compraria um touro com algumas vacas de leite, faria queijos para vender, teria porcos, galinhas e se possível até uma cabra e embalado nestes sonhos, ele trabalhava como ninguém. E imaginava o dia que poderia trazer os pais para viver ali com tanta fartura, ele que tinha saído de sua terra natal por conta da grande seca de 1922, passavam fome, a família e o gado, animais domésticos havia morrido, até mesmo um sobrinho não sobrevivera à seca, mas agora com sua coragem em deixar seus pais e aventurar-se por terras férteis. Logo fez amizade com os sitiantes vizinhos, Sr José, Sebastião, Ângelo, que nesses tempos ainda não era Angelim Barbeiro, filhos e genros todos os rapazes, Manoel Junqueira entre outros  que se juntaram e abriram uma estrada  de chão batido onde se podia trafegar com cavalos e carroças. Era um desbravador!

PRIMEIRO CASAMENTO
          Isaque decidira que seria impossível atingir seus objetivos sem uma companheira que o ajudasse, e casou-se com uma descendente de italianos, muito bonita e trabalhadeira, e logo ela lhe deu um filho, Miro que era a alegria da casa.Então decidiu que iria mascatear pela região, começou levando galinhas e porcos, depois frutas verduras e legumes, queijos, e já em 1932, ia a Marília comprar tecidos, linhas, agulhas entre outras coisas para vender para a freguesia, era sempre recebido com entusiasmo pelos moradores das fazendas, que obtinham suas encomendas que levava semanas esperando-as.
           Isaque saia de seu sitio e ficava muitas vezes por 10 dias fora, levava as coisas que fabricava no sitio e ia pegando as encomendas dos fregueses das fazendas, e chegando a Marília  comprava e voltava com o carroção tocado a bois, lotado. Essa era a vida dele conhecido e respeitado por toda esta região. Felicidade dupla, seu segundo filho estava a caminho e teria só duas viagens a fazer antes de o bebê nascer, pararia por uns dois meses e voltaria  a vida que tanto gosta. Mas não foi como esperava, sua esposa dera a luz a um menino, que recebera o nome de Antonio, criança já nascera mirradinha, e Rita Baldasco não se recuperara do parto difícil, com a saúde abalada, dois meninos para cuidar, e Isaque já  não sabia o que fazer, uma vez que não tinha família aqui no estado e Rita só dependia dele, até que no outono de mil novecentos e trinta e cinco, em uma manhã cinzenta e chuviscando, Rita desceu as escadas da casa e  chegou  até o porão com a intenção de torrar café, colhido ali mesmo na propriedade, pegou a torradeira e o café a ser torrado e subiu os degraus até a cozinha, onde o fogão já estava aceso desde as primeiras horas da manhã, o pequeno menino de pouco mais de um ano brincava no chão de madeira e o pequeno de três meses, dormia no cesto de taquara, e começou a torrar uma tarefa das mais difíceis, pois o corpo fica muito quente com este tipo de trabalho que leva algumas horas, e de repente Miro seu primogênito, abriu a portinha da cozinha que dava acesso a escada e ela por impulso maternal correu em socorro do menino, e recebeu aquela chuva gelada no rosto afogueado pelo calor da torradeira, no mesmo momento teve um derrame, e daquele momento em diante agonizou três dias seguidos, Isaque chamou as melhores parteiras e benzedeiras da região para salva-la, mas foi em vão, faleceu depois de muito sofrimento, deixando para trás o marido com duas crianças para criar.

SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

          As coisas iam de mal a pior, pois o pequeno Antonio de saúde delicada, piorara seu estado com a ausência da mãe e alguns meses depois veio a falecer, deixando todos atônitos com tanta tragédia. Sem saber ao certo o que fazer, deixou o menino Miro com uma família de sitiantes e depois de alguns meses, sua família chegou para assumir a casa. Eram seus pais Silvestre e Generosa, com seus irmãos. Todos jovens, ansiosos por trabalhar, neste período fora muito difícil a adaptação e com o passar dos meses decidiram ir para Marília a fim de conseguirem trabalho levando consigo o pequeno menino Miro, uma vez que o sitio não tinha renda suficiente para tanta gente. E assim o tempo ia passando.
       Isaque continuou com sua vida de mascate, porém sua casa ficara meio abandonada, e ele mal tinha tempo de ficar na propriedade, sempre contara com bons amigos, sitiantes vizinhos que o ajudavam a cuidar e a tratar dos animais na sua ausência. Em mil novecentos e trinta e nove, Isaque soube que uma guerra havia começado, mas pensou que jamais chegaria ali, era longe demais, na Europa, teria que cruzar oceanos, até chegar ao Brasil, não chegaria pensou ele. Saiu pensativo depois da conversa que teve com Dr. Henrique, Engenheiro, que viera dos Estados Unidos, canavieiro, chegou à nossa região no começo do século, casou-se e teve um filho com Dona Zinha e tocava a Usina com uma colônia de empregados, e Isaque era seu amigo de longa data, e sempre que voltava das viagens de negócios, passava na fazenda para ter um dedo de prosa com Dr. Henrique, homem muito alto, magro, com um abdômen bem avantajado, bom de prosa, e os dois ficavam horas na varanda da fazenda jogando conversa fora, sempre acompanhado de Dona Zinha que ora e outra servia um café para que ambos não desistissem da conversa, e falando de tudo surgiu a história da guerra.
           Isaque não sabia exatamente o que era uma guerra mundial, afinal ele havia completado 29 anos e já era viúvo, pai de dois filhos, um havia morrido ainda bebê e um filho de quatro anos que precisava de cuidados de uma mulher, sitiante, mas o mundo dele era pequeno, restringia-se só a Platina, e região, no entanto Dr. Henrique era Norte Americano, veio para o Ceará, para trabalhar e lá se casou com Dona Zinha que era de família abastada, dono de usina de cana, vieram para o estado de São Paulo e aqui compraram terras, e prosperaram na fabricação de cachaça, e pensando em tudo isso, voltava calmamente montado no seu cavalo, imaginando nas conseqüências de uma guerra, possivelmente ele iria para a guerra, tinha idade para isso, quem iria cuidar de tudo para ele, caso fosse, o que seria do seu filho, das suas terras, pensou o quanto havia sofrido quando, com 15 anos sairia do Rio Grande do Norte a convite do Dr. Durval para trabalhar na construção da estrada de ferro, o quanto fora difícil ficar longe dos pais, era um menino ainda, mas obedeceu aos conselhos da mãe e tinha medo que ficasse no sertão e acabasse como ela, a seca já era conhecida dos seus avós e sua mãe sabia que seria sempre assim, lembrou-se de seu irmão Tiago que tinha problema na voz e a mãe fizera uma promessa a padrinho Cícero que se o menino a sarasse o mandaria para o Seminário para ser padre, e assim foi quando seu irmão mais velho completou 15 anos a mãe arrumou as poucas coisas que tinha e colocou o menino na caravana que ia ao  Ceará, com destino ao seminário onde ficaria e nunca mais se soube dele, devia ser padre, ele dois anos mais novo, longe de todos, agora assumia as responsabilidades sozinho.
            A estrada poeirenta, ele olhou e viu todo o trabalho que tinha feito na abertura da estrada, casou-se, tiveram filhos, a esposa morrera de derrame e ele agora só. Pensou: "tenho que tomar uma providência". Vou casar-me de novo e esta ideia amadureceu .Nos 4 km que ainda faltava para chegar ao sitio, de longe observou as mangueiras que havia plantado há seis anos, carregada de flores, o bananal lindo como ele só, a horta produzindo tanto que mal dava conta de vender tudo na região, as vacas de leite, os animais de lida, o ribeirão passando tranqüilo na divisa, a galinhada ciscando no quintal, e havia decidido que no dia seguinte iria encontrar uma esposa, uma mulher trabalhadeira,  prestimosa. Tudo o que faria era ir à casa do compadre Manoel e comadre Emilia, eram sitiantes vizinhos, um português de temperamento bom e prestativo, que morava do outro lado da Água, mas seria no dia seguinte, hoje estava por demais de cansado e tudo o que queria era descansar e não pensar mais na guerra.
            Levantara cedo naquele dia, os primeiros dia de março, começara indicando um outono frio, uma friagem nas primeiras horas da manhã indicava isso, mas bem disposto, tomou um bom café, tirou leite das vacas, tratou das galinhas, já com o pensamento fixo de que naquele dia teria que arrumar uma moça para casar, tarefa difícil, uma vez que uma moça de boa família não casaria as pressas como desejava, entraria o inverno já casado, ia remoendo estas dúvidas na cabeça, e colocou o arreio no cavalo, e partiu em busca do seu intento, com um sorriso maroto nos lábios, pensou consigo mesmo: vou voltar noivo! E deu uma boa gargalhada.
            Isaque foi à casa do compadre saber onde havia uma moça trabalhadeira em idade de se casar, pois estava disposto a arrumar uma esposa para que cuidasse de suas coisas. O compadre riu com tamanha barbaridade, mas conhecendo Isaque, como conhecia não tinha dúvidas sobre isso e indicou umas três moças que talvez quisesse se casar animou-se e foi, pediu uma em casamento no bairro do Matão, o pai disse que consentia, mas teria que esperar um ano, ele agradeceu e foi no Bairro da Faxina e lá encontrou a outra e pediu em casamento que de pronto o pai aceitou o pedido, mas que não seria de bom tom, casar-se tão depressa, teria que ser em um ano, para fazer enxoval, preparar-se para o casamento, foi até o Bairro do Mombuca e lá encontrou uma família que tinha duas moças em idade de casar-se. Desmontou do cavalo, sentou-se num toco de arvore na entrada da casa e começou uma prosa animada com o homem e seu enteado, conversa vai e conversa vem , ele  falou que estava querendo casar e soubera através de um compadre que ali havia uma moça para casar e viera com a intenção de pedi-la em casamento. As mulheres dentro de casa ouviam  tudo, uma vez que a casa era feita de taipa, coberta com sapé, um tipo de capim apropriado para cobertura de casas. Dona Bina sorriu um sorriso contido, afinal casaria a filha mais velha  moça de saúde delicada, portadora de deficiência intelectual leve, um peso para uma mãe e olhando pela fresta da parede olhou percebeu que era um homem ainda jovem, bem apessoado e pela conversa lá fora, tinha bens e seria o marido que cuidaria de sua filha, enquanto isso, lá fora a conversa progredia, quando Isaque disse que tinha interesse em se casar e tinha por objetivo pedir a mão da filha em casamento, mas teria que ser no máximo em 30 dias, uma vez que ele tinha muitos compromissos de negócios e não havia tempo para namoro, noivado e casamento, João o padrasto sentiu-se afrontantado, onde já se viu tamanho disparate, casar uma moça de família em trinta dias, afinal as meninas eram de família, só uma moça perdida se casaria neste tempo, e mesmo que fosse perdida com certeza não moraria mais debaixo deste teto, uma discussão calorosa surgiu, vozes alteradas, aquele homem havia passado dos limites, e Sinhá Bina saiu para acalmar os ânimos, diante da figura austera da senhora, os homens ficaram em silêncio e ela disse que não consentiria que as meninas fossem fruto do seu casamento anterior, que o pai havia falecido de gripe espanhola e que o filho Joaquim era responsável pelas irmãs, e que seu atual marido padrasto das meninas decidiria e voltou e entrou na casa tão rapidamente quanto saiu, e a conversa voltou ao tom normal, mas Isaque não era do tipo que desistia assim tão fácil, insistiu na conversa e disse-lhe que pensasse na proposta, que era um homem prospero, viúvo, com um filho para criar e tinha boas intenções, e com seu jeito característico de ser, despediu-se, montou no seu cavalo e com um aceno de chapéu foi-se. O pequeno grupo se juntou para debater o assunto, uma vez que aquele homem de temperamento alegre e conversador poderia bem ser o futuro genro, tinha dinheiro e terras !!! Mas assim mesmo seria um falatório na região, todo mundo ia falar, as meninas nem poderiam mais sair de casa com tanta vergonha. Enfim Sr Isaque deixou os moradores daquela pequena casa atônitos com tamanho desproposito. Nem tanto ! Exclamou Sinhá Bambina, e disse a eles, que era a única chance de casar Maria, afinal ela era a mais velha e tinha  aqueles problemas de saúde, e sabia fazer todo o trabalho de casa e seria a oportunidade de vê-la casada e ninguém iria reparar, por conta da deficiência, achou até que teve muita sorte em encontrar um homem tão bom, as meninas ouvirão aquilo e ficou estupefatas, afinal Maria sendo a mais velha tinha o dever de casar primeiro e Bina quando espiou pela fresta da parede, assim como fez sua mãe, achou aquele homem velho, e agradeceu por ser mais jovem, lembrando que quando estava na roça no dia anterior já estava de olho em um companheiro de serviço, e esta conversa rendeu todo o dia.
SEGUNDO CASAMENTO
         A semana transcorreu tranqüila, mas uma ansiedade reinava no ar, naquela manhã enquanto varria o quintal, Sinhá Bambina pensava o quanto tivera sorte em casar sua primogênita, afinal quem cuidaria da Maria quando morresse, era uma preocupação constante, ninguém teria paciência com ela, tinha um temperamento difícil, e por vezes um tanto agressiva, mas bem conduzida poderia ser uma boa esposa, enquanto isso Isaque visitando uns amigos contara-lhes de seu intento em casar com a filha da Sinhá Bina, e os homens sentados a sombra de uma arvore, riram-se todos e disse-lhe: - Qual das duas você pediu em casamento? Isaque respondeu de pronto : Como assim? Tem duas?  Perguntou: Sim duas a Maria do Carmelo e a Lina ! Isaque praguejou, hábito muito comum na época por homens de todas as idades, afinal ele não perguntou quantas filhas a Sinhá Bambina tinha, qual era o problema, ele queria casar e que importa quem seria. Os amigos disseram: Bom !  A  Maria é meio doente, tem dificuldades na fala, e não é muito inteligente, mas a Lina é mais nova, e muito trabalhadeira, trabalha na roça desde menina por empreita, e ajuda à mãe na casa, essa sim é uma mulher trabalhadeira.
        Isaque deu um pulo, montou no cavalo sem ao menos se despedir e foi num trote só, para a casa da Sinhá Bina, quando chegou, vermelho como uma beterraba, não se sabia ao certo se era pelo calor ou pela raiva de imaginar que poderia ser tapeado por uma senhora parteira, apeiou do cavalo e Dona Bambina estava só com a Maria em casa e adiantou-se para atendê-lo e ele depois de cumprimentos rápidos foi direto ao assunto, perguntou-lhe sobre a filha Lina, e Sinhá Bina perguntou o que queria com a moça, ele mais que depressa disse que havia pedido sua filha para casar, mas só tinha interesse na Lina e se não fosse assim não haveria casamento. Pronto ! A discórdia havia se instalado. Sinhá Bina disse-lhe de jeito nenhum, Maria era a mais velha e tinha que casar primeiro, depois ela não arruma mais casamento e a discussão se prolongou por um bom tempo, até que Isaque que já estava de mau humor encerrou o assunto e disse que só se casaria se fosse com a Lina. E que voltaria no sábado para conversar com os homens da casa e em desabalada carreira montou no cavalo e foi-se.
         O sábado chegara com nuvens pesadas no céu, parecia um dia agourento, estava no outono e tinha pressa em casar, e aquela gente ignorante estava pensando que ia passá-lo para trás, só não desistia por dois bons motivos, a palavra empenhada e o casamento que era seu objetivo principal, tratou de arrumar as traias da lida diária, cuidou da alimentação dos animais, arriou seu belo cavalo, e muito pensativo, seguiu lentamente por aquelas estradas poeirentas que tanto conhecia, toda a animação do começo da semana havia se esvaido completamente, como era difícil arrumar uma esposa nestes dias, quando chegou à estrada principal, virou a esquerda rumo ao bairro da Mumbuca, não estava muito animado, mas palavra é palavra e havia dito que iria , seja lá qual fosse à resposta daquela gente.
         Começou a descer uma estradinha mal conservada, e logo avistou a casa de Sapé, muito bem rebocada de barro fresco, recém coberta com sapé novo, como bom observador que era, achou que havia reforma na casa, esperava que pudesse ser feito uma boa reforma na cabeça daquele povo e sorriu. Desceu um pequeno caminho até a casa, não havia porteira e já encontrou os dois homens sentados no mesmo toco de arvore e achou que talvez nem tivesse saído dali, amarrou a rédea do cavalo num palanque de tronco de arvore e cumprimentou os dois, que levantaram e com um aceno de chapéu convidou-o para sentar, seus olhos azuis eram tão claros que os dois homens chegaram a crer que não era bom das vistas. Isaque já foi tocando no assunto uma vez que estava de mau humor e não estava para conversa mole, mas João e Joaquim, padrasto e enteado, não demonstravam nenhuma pressa, até que Isaque entrou na conversa e perguntou da resposta do pedido de casamento entre ele e Lina,  Joaquim o irmão das meninas, disse que era tradição casar a mais velha primeiro e que, portanto seria Maria a noiva, Isaque empacou e disse a eles que se casaria apenas com Lina, caso ao contrario nao haveria casamento.
           Joaquim entrou na pequena casa e confidenciou com a mãe e depois de um tempo, começou a fazer um cigarro de palha, olhava de esguio para Isaque, enquanto este estava numa boa prosa com João, terminou o cigarro, pigarreou e disse a Isaque que ambos concordavam com o casamento de Lina , e que ele poderia dar andamento nos papeis. Isaque não acreditou, estava estupefato, gente estranha, uma hora não quer, outra já quer, despediu-se e foi embora rapidamente para ajeitar os documentos para o casamento, que seria o mais rápido possível.
           Animado e feliz passou na casa do compadre Hanoel e Dona Emilia para contar as novidades, tamanha era a euforia que trocava as palavras, depois de tanta conversa, os compadres perguntaram se Isaque havia conversado com a moça, e se havia realmente gostado dela. Isaque ficou mudo, afinal ele não pediu para ver a noiva, nem imaginava como era, mas todos diziam que era trabalhadeira e isso era o que importava, ele respondeu que não, que nem a conheceu, pois a Sinhá Bambina não permitiu que as filhas olhasse o homem no quintal para conhecê-lo.
           O compadre disse-lhe que era mau sinal, iam aprontar Maria e no dia do casamento na igreja, não tinha direito a arrependimento, e ele teria que se casar de qualquer jeito ou seria uma desonra para ela e para a família e uma afronta pessoal para os homens da casa.
           Isaque ficou em choque, que coisa ! Quando tudo parecia que daria certo, lá vem outra encrenca, almoçou com os compadres e voltou na casa de Sinhá Bambina, chegou desconfiado, mas não era homem de se deixar abater e foi logo ao assunto, voltei para conhecer a noiva, eles entreolharam-se e sem ter o que fazer trouxeram Lina para que conhecesse Isaque, nos 20 dias seguintes tudo estava pronto para o casamento.

      DIA DO CASAMENTO (28-05-1939)
   A missa era às oito horas da manhã, e o casamento seria realizado pelo padre logo depois da missa, Isaque chegou só no seu cavalo baio muito bem arreado, e outro cavalo pronto e em frente à igreja amarrou os dois no mourão da cerca e entrou para assistir a missa e esperar a noiva, que demorou um pouco uma vez que a Água da Munbuca ficava mais distante da cidade, o atraso compensou, pois ela chegava numa charrete que o Sr João Marciano, o padrinho fez questão de trazê-la, assim que desceu pegou no braço dela e levou-a até o altar onde o Padre celebrou o casamento, ninguém percebeu o quanto a noiva estava contrariada com aquele casamento, nem ao menos fora consultada sobre o mesmo.
           Lina era uma moça de uma família muito tradicional, pobre, porém gente de uma honestidade a toda prova, e em tempos de crise financeira sua mãe e irmão não pensaram duas vezes em casá-la com o primeiro homem que tivesse uma situação financeira boa, e o Isaque tinha, ela só o tinha visto uma vez antes do casamento, tudo o que se lembrava dele é que era magro e tinha uns olhos azuis, de azul mais claro que o céu em dias de primavera, era tudo o que sabia daquele homem. Sentiu uma magoa profunda da mãe, magoa que carregou a vida toda, mas não podia fazer mais nada estava casada com um homem dez anos mais velho que ela, viúvo e com um filho que não conhecia, não era essa a vida que sonhara, mas queria ter o direito de escolher o próprio marido, já que não conhecera o pai Fermi que morreu em 1919 de gripe espanhola com 25 anos de idade e sua mãe estava grávida dela, mergulhou nestes pensamentos mórbidos e enfim o padre disse estão casados, Isaque deu o braço a ela e juntos sairão da Igreja Matriz de Piratininga. Quando saíram  da Igreja os parentes e amigos cumprimentavam o casal e Isaque levou-a até o palanque em frente a Igreja onde estava amarrado seu cavalo e o outro animal que havia trazido, ajudo-a a montar e rumaram para o Sitio Santo Antonio de propriedade de Isaque, chegaram ao sitio e ele mostrou a nova casa, sua antecessora morara ali por quase 3 anos,era um paiol que havia sido adaptado para uma casa, era de pé direito muito alto, embaixo guardava carroças e utensílios da propriedade, e podia ver que porcos corriam de lá para cá, dividindo espaço com as galinhas e patos, subiram os 15 degraus e entraram em uma pequena cozinha,onde tinha um fogão a  lenha com varias lasca de paus catados em uma mata fechada logo acima da casa, uma mesa que o próprio Isaque fizera assim que casara com Rita, e umas vasilhas fruto do seu casamento anterior, e pela qualidades das vasilhas por certo à muito uma mulher cuidara daquela casa, não tinha enxoval, pois viera de uma família pobre, tudo o que tinha era dois vestidos de algodão barato que a mãe fizera muito rapidamente a tempo para o casamento.
           Olhava com cuidado tudo o que havia naquele cômodo, quando Isaque a trouxe para a realidade, disse-lhe: Faça o almoço que estou com fome, aí está as vasilhas e o arroz na lata e o feijão já está cozido antes de ir para o casamento, já matei um frango e depenei e está temperado é só cozinhar e saiu para apartar os bezerros.
           Um tempo depois voltou, almoçou, e foi ver umas novilhas para comprar, pois tinha encomendas na Fazenda Conquista, e só a noitinha voltou e disse-lhe que amanhã voltaria a mascatear e que ela cuidaria da casa, e quando ele chegasse em sua casa levaria a ela uma maquina de costura.
       
                NOVA VIDA : LINA MARIA DE JESUS
            Lina era uma moça de 19 anos, 1,60 de altura, magra, e tinha uma beleza única, seus olhos castanhos e cabelos pretos realçavam com a pele bem clara. Sua família veio de Minas Gerais na época da abolição dos escravos, as minas de ouro e esmeraldas estavam em decadência e toda sua família migrou para estas bandas, na esperança de dias melhores, eram agricultores e trouxeram dinheiro com a venda das terras, e junto com muitas outras famílias saíram com carroções puxado a bois, e durante meses, descendo a serra seguiram pela estrada real, passaram por Piquete uma pequena cidade situada no sopé da Serra da Mantiqueira, no Vale do Paraíba, continuaram a estrada real por Guaratinguetá com seus coronéis e com aquelas terras ricas as margens do Rio Paraíba do Sul, passando por Aparecida, cruzando os cafezais rumo a Taubaté, onde pararam por vários dias, depois de mais de um mês de viagem, alguns já estavam desanimados com a longa jornada rumo à terra prometida pelos mineiros, foi uma viagem dolorosa, uma vez que muitos nasceram e morreram nesta jornada, e continuaram pelo rio Tietê, seguindo a trilha da Serra da Cantareira, acamparam por vários dias em Sorocaba para comprar mantimentos e entrar na mata fechada do Estado de São Paulo, dali em diante era uma aventura, não teriam mais lugar para comprar mantimentos e ainda teriam que enfrentar tribos indígenas, e havia muitas mulheres e crianças, teriam que viajar sempre prontos para eventual batalha.
       O líder do grupo Coronel Nogueira distribuía os víveres a todos de acordo com as necessidade, e pernoitava sempre a beira de rios, que aos montes havia naquela região, três meses se passaram desde a saída do Sul de Minas, as mulheres estavam por demais de cansada e as crianças morriam mordidas por mosquitos, e na maioria das vezes quando a febre atacava a caravana parava para velar mais um morto, e como a tradição mandava, velava no chão duro e ali mesmo cavavam uma sepultura e debaixo de prantos era deixado para trás, só com uma cruz improvisada indicando que ali havia uma pessoa.
           A viagem prosseguia mais lenta agora, pois a mata fechada tinha que ser aberta com machados, foice e facões, e os carroções tinham dificuldades de passar, e o tempo mudara, nem perceberam que havia mudado de estação, era verão e chuvas torrenciais começavam de repente e por vezes ficavam atolados no lamaçal e impedidos de continuar. As mulheres da caravana rezavam terços para que conseguissem chegar a esta terra, pois tudo o que tinham pela frente era floresta, à noite ouviam os animais selvagens perto do acampamento e perdiam o sono por conta das crianças e havia ainda a superstição que as acompanhariam por toda a vida, alma penada, lobisomem, caipora, saci, entre outras coisas, e rezavam muito para se proteger destas coisas.
           Chegaram a São Manoel no final de 1888, com chuvas torrenciais e a caravana mais uma vez estava parada há duas semanas, não podiam prosseguir, tamanho atoleiro nas beiras dos rios e além do mais tinha as cheias dos rios, que transformava tudo em um banhado, alguns decidiram ficar ali mesmo e tocar a vida, e seus avós com o resto da caravana seguiram viagem até as margens do Rio Pari, onde montaram acampamento e fizeram a divisão daquelas terras do Estado, que  não tinham dono, cada um que escolhesse sua gleba de terra e se ajudariam a construir uma nova vida, da nascente do Rio Pari até o Rio Paranapanema. Eram terras férteis, de cor avermelhada, não conheciam este tipo de terra ,uma vez que vinham de terras montanhosas de Minas Gerais.  Foi feito uma divisão  de acordo com tamanho das famílias, e seus avós assumiram o Rio Quati até o Rio do Sapé, mais ou menos uns 250 alqueires, e começarão a trabalhar imediatamente, cortaram arvores frondosas e fizeram casas de madeira de lei e cobriram com sapé, um tipo de capim utilizado pelos índios para cobrir as casas, e foram se ajeitando, as sementes que trouxeram foram semeando e não demorou muito já colhiam tudo para sobreviver, e as sementes de arvores frutíferas já estavam em tempo de produzir, não havia terras como estas diziam os homens, e as encrencas e entrevero que havia entre eles eram decididas na lâmina da faca.
             E ali nas terras novas, Sinhá  Bambina cresceu e tornou-se uma jovem trabalhadeira, a mãe Barbara pretendia casá-la com o primo Fermi e assim que completaram 16 anos o casamento se realizou e ganhou um casal de negros como presente de casamento, estes vieram com eles por causa da Abolição, a vida cotidiana de forasteiros naquela região inóspita do Brasil continuava, não eram só os mosquitos que matavam, também as mulheres morriam de parto sem socorro algum, o luto era guardado conforme a tradição mineira. Um ano depois disso os homens já arrumavam outra companheira, trabalhavam de sol a sol e uma mulher fazia parte da vida domestica. Sinhá Bambina Maria de Jesus não se sabia ao certo porque colocaram este nome, deve ser por promessa feita pelo seus pais por algum motivo desconhecido, ela era da família Batista Jeremias, e pertencia a uma família numerosa, sua mãe Maria Barbara Batista Jeremias e seus irmãos, vieram de Pedra Branca, Minas Gerais e Bambina assim que estava em idade de se casar, já havia sido prometida ao primo Fermino Ferreira Ribeiro, que com sua família e seus irmãos e  originário de Tijuco Preto, Santa  Cruz da Pedra Branca- MG casou-se e foi morar na Água da Mumbuca e lá nasceram seus filhos Joaquim em 1913, e dois anos depois nascia Maria do Carmo e, como Bambina era parente muito próxima de Fermi a criança com o passar do tempo já demonstrara uma ligeira deficiência intelectual, era lenta para pensar, mas era perfeita de corpo, Sinhá Bambina agradeceu a Deus por isso, menos mal, em 1919 a gripe  espanhola chegou, não se sabe ao certo quem trouxe, mas as pessoas contraiam a gripe e logo morria e assim Sinhá Bambina grávida de seu terceiro filho viu o marido ficar doente e no final de cinco dias estava morto, sem saber por que ele com tanta saúde perderia a vida por conta de uma gripe.
              Os vizinhos não lhe serviram de nada, pois todos tinham medo da doença que já havia matado mais pessoas naquela região, arrumou como pode seu marido ainda jovem com apenas 25 anos dentro de um caixão de tabuas feito ali mesmo no sitio e levou-o para o cemitério com pouco mais de 10 pessoas da própria família, voltou desolada para casa, como faria para criar as crianças e mais aquele que tinha na barriga, por certo morreria também assim que nascesse quatro meses se passaram desde o velório de Fermi e em uma tarde quente de final de outubro Lina nascia, era uma menina sadia, sua mãe Barbara  fizera o parto e viu o quanto a menina era bonita, foi criada com fartura, até que a 1ª guerra mundial apareceu por aquelas bandas, ouvirão falar de que soldados estavam atacando os sítios e levando tudo o que tivesse de alimentos e ela não foi poupada, levaram porcos, galinhas e viveres de toda espécie, deixando-os sem nada, só não fizeram mal as mulheres por conta de ficarem no mato escondida até que deixassem de ouvir barulho dos saqueadores. Sinhá Bina achou por bem arrumar um marido para proteger-se e a seus filhos e casou-se com João Paixão, homem muito bonito de olhos azuis e bem apessoado, e começou a trabalhar na propriedade com o enteado Joaquim, mas pouco fazia e eram tempos ruins, faltava tudo e Sinhá Bina  engravidou de uma filha, assim nasceu Maria  da  Cruz  e  dois anos depois veio Benedito Antonio.

LINA  FERMINA 
                      VIDA DE CASADA
            Segunda feira era um dia comum para qualquer camponês, e a vida de Lina começara cedo, era o primeiro dia em toda a sua vida que dormira longe da mãe, especialmente com um desconhecido que agora era seu marido, incompreensível para ela, mas levantou-se às 4 horas da manhã para fazer o café e o almoço que Isaque levaria para comer na estrada, estava escuro e ascenderam as lamparinas e preparou uma comida da qual não estava acostumada a fazer e Isaque orientou-a como deveria fazer comida forte, com  batata doce e farinha de mandioca, arroz, feijão, carne de sol, ajudou-o a arrumar as tralhas de viajem, e ele seguiu sem ao menos dizer quando voltaria, quem sabe em quinze dias. Afinal agora não teria mais que se preocupar com nada, tinha uma mulher para cuidar de tudo, e as referencias dela eram ótimas, então para que se preocupar e foi cantarolando uma canção de infância, certo de que seus problemas acabaram.
            Lina subiu as escadas do velho paiol, que hoje servia de casa e foi finalmente conhecer a casa, estava só com seus pensamentos, acabou de lavar a louça numa tina de madeira e colocava as louças lavadas em uma bacia de alumínio, que servira também para dar banho nas crianças da falecida, enquanto isso  lá fora a passarinhada já cantava em alto e bom som, avisando que o dia clareava e ela mais que depressa pegou os latões de leite e foi para a mangueira ordenhar as vacas, trabalho esse que já estava acostumada a fazer na casa materna, porém, as vacas eram  bravas difíceis de pear, amarrar as pernas traseira foi um custo, porém conseguiu a muito custo tirar leite e levou para dentro para ferver e fazer coalhada e queijo, orientação do marido, desceu a escada e foi tratar das galinhas e dos porcos, e regar a horta que o marido tinha um carinho especial, avisando-a que não se esquecesse da horta.
            À tarde deu uma boa espiada na casa por dentro, na parede de madeira da sala, tinha um retrato pintado da falecida, observou e admirou a beleza européia da mesma, no centro da sala havia uma mesa de madeira quadrada, que comportava oito pessoas com cadeiras reforçadas, luxo que não conhecia, e foi até o quarto que dormira sua primeira noite de casada, arrumou o colchão que era de palha nova, afofou bem até que ficasse bem alto, colocou os lençois, e os travesseiros  preenchidos de taboa, um tipo de planta achada nos banhados da região, ajeitou bem e olhou com atenção aquele quarto que fora da falecida, a cama, os lençóis, travesseiros e teve uma visão mórbida de que ali ela havia morrido, era supersticiosa e um temor passou-lhe pela cabeça, mas o que fazer, teria que enfrentar corajosamente aquela nova situação, e pensou que a noite viria com certeza e ela estaria sozinha por muitos dias.
           A semana demorou a passar, no sábado de manhã  fez todo o trabalho de costume e foi buscar água no ribeirão que passava no fundo da propriedade a fim de lavar aquele chão que a muito tempo não via água e sabão, trouxe alguns latões de água, subiu a escada a muito custo, era uma mulher de baixa estatura e o serviço pesado demais, mas continuou, esquentou a água no fogão a lenha com sabão feito em casa e adicionou um pouco de soda caustica e lavou até a madeira voltar à cor original. O vento soprava forte e aquela friagem da lida do dia havia deixado ela com um aspecto muito cansado, mas terminou as tarefas de casa e foi descansar. A noite estava clara e já fazia uma semana que estava completamente só e amanhã era domingo e o marido quem sabe chegaria, não pensou muito nisso, pois nem o conhecia direito, no dia seguinte do casamento ele já fora viajar para mascatear pela região, lugares que não conhecia, iria trazer o menino e uma maquina de costura e imaginou como seria, por mais que quisesse imaginar não conseguiu, e pegou no sono, tudo o que ouviu naquela noite foi uivos de animais da mata e nada mais.
             O dia amanheceu já com o galo cantando nas primeiras horas da manhã e mais que depressa saltou da cama, arrumou ligeiramente  a cama  mexeu bem as palhas de milho, ajeitou os travesseiros, estendeu uma colcha de retalhos que estava guardada no baú de madeira, onde tambem estava cobertores corta febre, expressão usada na epoca quando se referia a um cobertor de pouca qualidade, os travesseiros estavam pesados demais e pensou que qualquer hora desta iria fazer novos travesseiros, e imaginou que aquele ainda era da falecida, olhou em volta e viu a arca de madeira onde guardava os cobertores e os lençóis que foram da falecida, riu-se, e foi ascender o fogão a lenha para fazer um café e comer um pão amanhecido que era guardado dentro de uma lata de banha, e um pedaço de queijo, lembrou-se de sua mãe neste momento e pensou que aquilo era um banquete na casa de sua família, mas não havia tempo a perder, tinha que ordenhar as vacas, tratar das galinhas e porcos e socar arroz no pilão para semana toda.
            Terminou as tarefas da manhã e entrou para fazer o almoço, quando ouviu uma cantoria que vinha da pequena estrada da propriedade e seu nome  era gritado em tamanha altura que chegou a crer quer alguém estava ficando louco, saiu à janela e viu o carroção puxado com duas parelhas de boi, um pequeno menino em cima, todo sorridente e Isaque coberto da poeira da estrada, cantando e falando alto, coisa nova para ela, vinha de uma família de gente que falava manso e calma, risada e estardalhaço não era o forte da família dela, afinal de contas era de família de Minas Gerais, povo calmo e de fala mansa e sorriu também, desceu as escadas e Isaque já perguntou do almoço, se tinha matado um frango, o que tinha para comer, eram tantas as perguntas que ela não conseguia mais se lembrar da primeira pergunta.
            O pequeno menino Mira subiu as escadas correndo sem cumprimentá-la, e Isaque gritava para que viesse ajudá-lo, descarregou a carroça e foi até a beira do rio para se lavar, tamanha a fome que sentia, ela preparou o almoço e juntos almoçaram pela primeira vez depois de casados, Isaque disse para o pequeno Miro que essa mulher que ali estava era sua segunda mãe, coisa que não foi aceita por ambos. O tempo faria o resto.

                                           MAQUINA DE COSTURA

              Lina trabalhava muito e Isaque mal parava em casa e o menino era muito travesso, e tinha que correr atrás dele o dia inteiro, e sonhava o dia que teria seu próprio filho, agora já com a maquina de costura, sua sogra veio visitá-la para explicar como fazia para costurar naquela engenhoca, e foi assim que nasceu a Lina costureira. Generosa uma senhora de estatura pequena, com olhos azuis muito claro de aparência bondosa, descendente de holandês, era uma sogra muito boa, desmanchou uma calça de Isaque com uma gilete e colocou o tecido em cima da mesa da cozinha, aquela roupa toda descosturada em cima do tecido novo. E prendeu com alfinetes todas as peças desmanchadas e com uma tesoura começou a cortar, e depois alinhavou a calça e comparou as medidas, e costurou para que ela entendesse a calça pronta, aí veio à camisa e depois de pronta, depois um vestido e acabando-se todo o ensino que duraram 15 dias voltou com Isaque para Marília, com a promessa que traria bastante costura para ela fazer, até aquele momento ela não havia entendido nada, casou, aprendeu a cuidar de um sitio costurar e agora mãe de um menino, seu enteado e esposa de um homem singular, sem preconceito, amigos de todos, gostava de viajar e não bebia, não fumava e não gostava de jogar cartas, seu único objetivo era  trabalhar e cantarolar e dar boas risadas, e falar palavrões, coisa abominável para ela.

   GENEROSA Maria de Jesus
           Generosa era uma mulher baixa magra, cabelos louros, que mantinha comprido como mandava o costume da época, seus olhos azuis eram encantadores, e era casada com Silvestre Gomes , seu primo em primeiro grau, assim como seus pais, nasceu em Caicó no vale do Seridó região árida do sertão potiguar, era filha de Manoel Inocêncio e Tereza Maria de Jesus, e tinha uma família numerosa, seus sogros Basílio Silva Dantas e Francisca Dantas , nasceram também em Caicó, ambos de família tradicional, seus avós vieram de Portugal e receberam aquelas terras do vale do Seridó do Rei de Portugal,  cá se instalaram com suas família e permanecem até hoje. Na década de 20 seu filho Isaque veio para São Paulo a convite de Dr. Durval para construir a Estrada de Ferro Alta Paulista, e quando ficou viúvo pediu que toda a família viesse cuidar do sitio e de seu filho Miro, mas pouco tempo depois se casou com Lina e a família ficou em Marília onde não faltava trabalho, e agora estava passando duas semanas no sitio com o intuito de ensinar Lina a costurar.

   CRENDICES POPULAR - 1940
           Isaque estava casado a pouco mais de oito meses e o verão estava por demais de quente, como era de seu temperamento, resolveu de uma hora para outra que iria viajar Lina não acostumada com este tipo de coisa, não aprovava as atitudes do marido, porém obedecia, e ele decidira que iria rever os amigos em Marília, era uma viagem a passeio, o primeiro em toda a vida, ela completará vinte anos em outubro e Isaque quis levá-la, e foram de charrete , ficaram o dia inteiro viajando, Marília fica a uns oitenta km de Platina e era uma viagem difícil, passando por matas virgem, muitas vez só uma trilha pelo caminho usado por boiadas vindo da região da alta Paulista.
             Lina e Isaque levaram dois cavalos extras, para esta viagem, pois pretendiam dormir em Marília, viajaram o dia inteiro, chegaram altas horas da noite na casa da mãe, que os recebeu muito bem, descansaram aquela noite e assim que acordou, Isaque disse ao pai Silvestre que pretendia ir a São Paulo visitar uns parentes que haviam chegado do Nordeste, e seu pai iria também.
           Isaque havia esquecido por completo da 2ª guerra que havia começado, na verdade ele nem acreditava muito nesta guerra, ninguém falava mais nada e ele deu o caso por encerrado, e dois dias depois embarcavam no trem rumo a São Paulo.
           Desceram na estação da Luz com o dia já velho, como dizia naqueles tempos, e foi para São Miguel Paulista e lá ficaram uns dias, e como era do feitio dele decidiu levá-la na praia e os três foram para a praia de Zé Menino em Santos, viagem de lua de mel acompanhado pelo sogro, que anos depois era contando com risos pelos familiares.
            Hoje posso imaginar a vergonha que passou de maiô perto do sogro.

                                              SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
                
    Chegou desta viagem com os rumores da 2ª guerra, todo mundo em São Paulo estava assustado, os jovens ansiosos para entrar nas forças armadas e ir lutar, esse assunto deixou Isaque meio ansioso e não quis ficar muito tempo fora de casa, ele ouvira falar que o Brasil cedo ou tarde entraria na guerra e achou melhor voltar, assim que chegou começou sua rotina de trabalho, e Lina um pouco mais confiante resolveu abrir aquele baú, esse baú era o da falecida e ela tinha curiosidade de ver o que havia dentro dele, esperou Isaque viajar e foi dar uma boa espiada, abriu e logo encontrou muitos tecidos guardados  a espera de ser feito, uma dor passou por seu coração de menina jovem, ainda sem filhos, tirou cuidadosamente e embaixo achou uns vestidos, combinação e algumas roupas de bebê,  guardou-os e fechou novamente á espera do dia que daria àqueles tecidos a alguém. Ela havia se casado a mais de três anos e não engravidava, acreditava que era estéril, pois Isaque tinha dois filhos do primeiro casamento e o problema não era ele, talvez o trabalho demais, e a vida dura do tempo de solteira tenha feito mal e agora ela queria filhos. Havia o menino Miro com oito anos que era muito travesso e deixava-a com os nervos a flor da pele, tinha um temperamento difícil, era brava por natureza e não pensava duas vezes para dar uma bela surra no menino, que a cada dia ficava mais revoltado,quando certo dia o Sr. Ibrain apareceu bem cedinho no sitio , bem na hora de ordenhar as vacas, ajudou Isaque a fazer o trabalho, fez um cigarro de palha e com muito jeito, disse que havia sumido um canivete do paiol dele e que Miro é quem havia tirado. Isaque ficou roxo de raiva, mas controlou-se e disse que ia saber direito desta questão, chamou o menino e perguntou, e o menino ainda de calças curtas sentiu que poderia morrer se não contasse a verdade e disse que ia buscar, pois estava escondido no mourão da porteira, enquanto isso Isaque foi buscar o rabo de tatu, um tipo de chicote para pegar gado no pasto, esse tipo de chicote emite um som seco e o gado obedece bem a este barulho, e podia ser usado para castigar pessoas.
          Lina tremeu de medo na cozinha, o marido era de um temperamento bom, cuidadoso com o filho, amava aquele filho, não seria capaz de castigá-lo com um rabo de tatu, e começou a rezar, sabia que o menino era terrível, ela mesma já havia dado umas boas coças nele, mas nada como aquilo Miro chegou devagar com o canivete na mão, Isaque pegou-o pelas mãos que eram pequenas ainda devido a pouca idade, segurou com força mais do que o necessário e desceu uma trilha até o ribeirão que dividia o sitio com o Sr. Isaque, atravessou o riacho e chegaram à casa do homem, e obrigou o menino a devolver, pediu desculpas e voltou para seu sitio.
           Lina nunca havia visto o semblante do marido com raiva, entrou em baixo da casa onde guardava as traias de viajem e pegou o rabo de tatu e deu uma surra daquelas no menino, no começo era choro, depois os gritos de dor e Isaque lembrava-lhe de que aquelas chicotadas seriam a primeira e última que daria nele, pela vergonha que havia passado.
           Lina morrendo de medo desceu a escada e pediu que parasse, pois podia matar o menino, Isaque parou e chorou e Lina levou-o para dentro e tratou das chibatadas com compressas de sal, e depois de uma semana, sem falar com ninguém, Isaque pediu que arrumasse as roupas do menino que iria interná-lo em uma colégio interno em Marília.
              Ficava só de novo e ansiava para Deus lhe dar um filho, até que um dia Isaque chegou com duas garrafas que havia pedido para um curador fazer para que ela emprenhasse e disse-lhe que tomasse direitinho que o curador garantiu que faria efeito, e fez antes de terminar a primeira garrafada ela ficou grávida.

SEU PRIMEIRO FILHO
       Estava grávida, a felicidade era completa, jamais ficaria só, teria um filho para cuidar e uma companhia que jamais a abandonaria, fato que aconteceu até a sua morte. Quando chegou a semana do parto Bina veio ficar com a filha, afinal era parteira e benzedeira, e era o único recurso que as mulheres da região tinham, a dor do parto começou de madrugada e entrou pela manhã, e o desespero de Isaque aflorou, lembrou-se de sua falecida esposa que sofreu muito do seu último parto e acabou falecendo, à tarde o sofrimento continuava e ela não tinha mais forças e Bina pediu a Isaque que apertasse com um lençol torcido empurrando o bebê para baixo, assim forçaria o nascimento e realmente a criança nasceu antes da noite chegar, Lina cansada demais e enfraquecida desmaiou e a custa de muitas rezas e orações restabeleceu daquele parto difícil, e era uma mãe prestimosa e assim que o pequeno Antonio desmamou com pouco mais de um ano, Lina ficou grávida de uma filha que recebeu o nome de Maria do Carmelo em homenagem a irmã mais velha que estava para se casar e que seria a madrinha de batismo da menina, que recebeu o apelido de Nena  pelo irmãozinho Antonio dois anos mais velho.

Sua irmã , Maria do Carmelo
           Maria do Carmelo era a irmã dois anos mais velha, e tinha uma deficiência mental leve, tinha um temperamento difícil, e Isaque na época do casamento rejeitou-a por conta disso, e Sinhá Bina ficou desanimada, até que um dia seu filho Joaquim apareceu muito entusiasmado em sua pequena casa de sapé e disse-lhe que um homem em Platina havia ficado viúvo e que tinha três filhos e que talvez se houvesse um boa oferta ele se casaria com a Maria do Carmelo, lembrou-se da Lina e disse-lhe que ela já estava bem, que o marido era muito bem de vida e que bem poderia dar a parte da sua  herança para inteirar e casar a Maria, e assim foi, fizeram o acordo com o viúvo e Maria estava as véspera de se casar. Seu noivo que ela também não conhecia receberia por dote terras, vacas, porcos e ele aceitou de pronto, marcaram o casamento e da mesma forma como Lina, Maria iniciou sua vida de casada e nove meses depois nascia sua única filha Helena que assim como a mãe também nasceu com um problema mental.

                  DOIS  IRMÃOS
       Antonio  era um menino moreno, bonito e forte, mas calmo e sossegado, o pai Isaque não gostava de pessoas com este temperamento, queria um filho ligeiro no trabalho, mas a mãe o protegia do serviços, e naqueles tempos um menino de oito anos já trabalhava no campo, tratava das galinhas, tinha as tarefas a fazer, mas era demais de sossegado para não ver os gritos do marido acabava fazendo estes pequenos serviços, já  Nena  era uma menina linda com cabelos louros e cacheados, olhos verdes boca pequena demonstrando que seria de poucos amigos, tinha um temperamento terrível, beliscava, mordia quem quer que seja não gostava de ser contrariada e era irascível, deixando marcas no pai e na mãe, quando brincava no pequeno jardim da casa era para fazer sepulturas onde cobria com as flores apanhada ali mesmo no jardim, o que deixava seus pais pensativos, tinha uma saúde de ferro, os vizinhos diziam que o que tinha de treteira tinha de magreza.
           CASA NOVA
       Lina estava grávida outra vez, e agora sem muito animo, queria um filho e agora já tinha uma ninhada, pensou no quanto trabalhava e cuidando de crianças grande e pequenas e ainda costurava  e a gravidez era um incomodo para ela, sem médico para ajudá-la e seu parto sempre muito difícil, o cansaço tomava conta do seu corpo. Era evidente no seu rosto, e Isaque feliz com o termino da guerra, resolveu fazer uma casa nova, achou que era pequeno o paiol que servia de moradia para eles, arrumou as tabuas e assoalho, telhas e contratou um carpinteiro e mãos a obra, a casa teria que estar pronta antes da criança nascer, e assim foi, duas semanas antes do parto Lina transportou toda as coisas para a casa nova, que tinha três dormitórios bons uma boa sala, com mesa grande e a cozinha bem arejada com um fogão a lenha e um forno para assar pães.
       Fez na maquina de costura uma toalha nova para por sobre a mesa e arrumou um vaso de flores colhidas no canteiro de rosas e o velho baú  da falecida ela esqueceu de propósito, não queria mais ver aquele baú em quanto existisse, mas a foto pintada da falecida, foi  a primeira coisa que Isaque tirou do prego onde havia sido colocado a mais de 10 anos e chegando à casa nova, escolheu um novo lugar onde pudesse por o quadro da finada Rita
E permaneceu até a morte de Isaque, Lina ficava muito nervosa com este defeito de seu marido, afinal ela morreu há tanto tempo, que mania de guardar o quadro, o que nunca foi motivo de brigas entre eles, uma vez que Lina tratava-o de Sr, por conta de ser ele muito mais velho, e não discutia porque sempre perdia mesmo.
            A primeira vez que foi lavar o assoalho apareceu uma mancha vermelha no chão, jogou soda, esfregou, secou e nada, a macha estava lá, quando Isaque chegou perguntou sobre o que seria aquela mancha, depois de muito examinar, disse-lhe que aquelas tabuas da sala eram do paiol velho e que havia faltado e ele retirou de lá e usou na sala, e que aquela mancha talvez fosse do homem que morreu matado no paiol antes de comprar o sitio, e Lina ficou assombrada, e disse-lhe que idéia foi essa de por esta tabua na casa, ele deu uma boa risada e disse que não acreditava em assombração.
                                              SEUS  11  FILHOS
             O dia do parto chegou e o menino sem muito trabalho veio ao mundo e logo recebeu o nome de Nícola era um menino lindo, louros com pequenos fios de cabelos cor de ouro, e uns olhos claros que diziam que seria da cor dos olhos do pai, Lina se recuperou rápido, e o menino a cada dia ficava mais bonito, e ela olhava os três filhos com admiração, mas todos tinham problemas de saúde, quando não era uma coisa era outra, Nícola tinha umas cascas na cabeça que não sarava, a menina era mirradinha, e Antonio continuava o mesmo, sem muita coragem para nada e com o apoio da mãe descansava na velha mangueira e dormia.
            Ano sim ano não tinha criança nova em casa, e desta vez era José Jerônimo, menino lindo de saúde, forte assim que completaram três meses, o pai ficou louco por ele, todos os dias ele achava uma parecença com alguém da família, ora era com a mãe, ora com o irmão, ora com ele próprio, e era um luxo só com o rapazinho, e como Lina costurava bem nesta época, sempre chegava com cortes de tecido para fazer roupas para os filhos, mas começou um período ruim para Lina, seu filho que nasceu logo depois de José Jeronimo,  morreu antes de nascer, e como era de esperar foi terrível para ela, passado pouco mais de oito meses engravidou de uma menina que Isaque colocou o nome de Aparecida, em homenagem a Nossa Senhora de Aparecida, por quem era devoto, e como a menina era de uma beleza surpreendente, com os olhos do pai, uma beleza incomparável, foi até a Fazenda do Dr. Milton  e convidou para padrinho da menina, e o convite foi aceito com a promessa que ela seria professora como a madrinha Maria, e Cidinha foram criadas por seus pais  muito mimada, sempre com a expectativa de mandá-la para  escola a fim de cumprir a promessa feita ao compadre, e ela crescia em beleza e formosura, e Lina engravidou de outra filha que morreu com o mal de sete dias. Isaque decidiu comprar uma chácara na cidade de Platina, afinal Cidinha já estava com dois anos e meio e logo teria que colocá-la na escola, Lina engravidou novamente e os preparativos para  mudança a deixava com os nervos a flor da pele, as crianças brincavam o dia todo no pequeno jardim do sitio, onde dálias, copos de leite, roseiras, cravos de defunto com seu cheiro peculiar, e outras flores foram plantadas por ela durante todo o período em que ali viveu , quando Isaque estava fora, coisa que ele nem percebeu por conta da filharada, era um homem brincalhão, e risonho, falava muito alto, e o vizinho sempre sabia de todos os seus projetos sem que fosse necessário contar a alguém.
            Nesse tempo Isaque contratou uma família para trabalhar no sitio, como tinha muitos afazeres, não dava mais conta de tudo, e a mulher deste homem por nome Maria, era um tipo bem preguiçoso, vivia de porta em porta o dia inteiro trazendo conversa e levando, Lina que era treteira por natureza estava grávida e tinha uma antipatia gratuita pela mulher, e certo dia ela estava socando arroz no pilão e a Tal Maria apareceu para conversar, e ficou olhando,  se enfezou e deu outro socador para ela, a fim de que a ajudasse nunca mais ela apareceu para conversar, mas seu cunhado João irmão de seu marido estava morando com eles para a colheita de algodão e na hora da janta, soprou no ouvido de Lina que Isaque estava de olho na tal da Maria. Lina virou uma onça de brava e maquinou a noite inteira como ia pega-la.

                                                                       1953- A BRIGA

          No outro dia já com a barriga aparecendo, por conta da gravidez, inventou de fazer rapadura, colheu a cana, tirou o caldo e começou a fazer a rapadura, neste momento a Tal Maria ia descendo a trilha do ribeirão  e teria que passar ao lado de Lina, mas João desconfiou da cara  da cunhada quando tomou o café de manhã e achou que algo estava no ar, e ficou na espreita, a mulher quando ia chegando Lina levantou a pá com melado quente com a intenção de matá-la ou vai saber o quê, João deu um grito e ambas as mulheres olharam e a tempo a tal Maria correr e depois disso Isaque achou por bem mandá-los embora, sabendo que não ia dar certo aquela vizinha por perto, Lina agora com cinco filhos e um enteado, andava cansada de tanto trabalhar, a vida dura no sitio deixou-a esgotada e com a saúde um tanto debilitada e ainda ficava grávida a cada dois anos, e seu esposo Isaque, assistia a isso agora com mais animo para ir morar na cidade e colocar um negocio, idéia que não compartilhou com ninguém, Isaque e  Lina, comprara uma propriedade em Platina, na entrada da cidade, tinha um pasto para a vaca de leite, um cavalo, chiqueiro para os porcos, galinheiro e uma casa velha precisando de reforma, mas naquele momento era tudo o que ele  queria, chegou à casa entusiasmada em dar a noticia para a família, ele era um homem passional, com emoções fortes, tudo o que fazia era anunciada com alegria, cantoria, gritos, tamanha a felicidade que estava.
        Isaque era  um homem com quase 45 anos, rosto redondo, olhos azuis, boca bem feita, bigode aparado como usava na época, um homem bonito com um ligeiro sotaque nordestino, ele ia cantarolando pela estrada poeirenta, num trote macio do seu cavalo pampa.
         Chegou ao sitio quase ao anoitecer, com uma baita fome, e fazendo o barulho que era do seu costume, foi entrando já contando as novidades, as crianças muito alegremente recebeu o pai com risos e gritos e ele mais que depressa sentou na cadeira e já um menino montou na sua perna enquanto os outros sentavam ao seu lado para ouvi-lo, sua mulher era de temperamento fechado, avessa a muito barulho e aquela sua família era bem barulhenta.
         Isaque contava que havia fechado o negocio na chácara de Platina, todos ficaram encantados com a noticia,  especialmente os dois filhos mais velhos, Antonio e  Maria  do Carmelo  que todos os dias tinham que ir a cidade a cavalo para freqüentar as aulas na escola, quando chovia não poderiam ir por conta da lama que se formava na estreita estrada de terra, aberta pelo próprio pai  a enxadão, trabalho difícil, contou com a ajuda dos sitiantes vizinhos que também a usavam quando queriam ir até a pequena cidade. 
       Lina porém tinha um temperamento um tanto difícil, criada sem pai, pois o mesmo havia morrido antes de ter nascido, no ano de 1919 ele falecera de gripe espanhola e  sempre teve ressentimento de sua mãe ter se casado de novo, não nutria carinho pelo padrasto, mesmo sabendo que havia sido criada por ele, com todas as dificuldades do  pós guerra, lembrando muitas vezes  em conversas informais do quanto era grata a ele por ter salvado sua vida quando pequena, mas isso não abalou seu descontentamento por ele, mas agora seu marido decidira mudar para a cidade, sabia que era bom uma vez que Manoel só fazia coisas boas, tinha muita imaginação e uma visão futurista de tudo, e as crianças poderiam estudar tudo isso passou pela cabeça.

                                                                 A MUDANÇA

        1954 acabavam de chegar e eles estavam eufóricos com a possibilidade de mudarem para a cidade, eles sempre moraram no sitio, tiveram cinco filhos e estava grávida novamente, era uma vida muito dura para ela, levantava-se muito cedo antes mesmo do dia raiar, preparava o café, tirava água do poço, tratava das galinhas, dos porcos, ordenhava as vacas, e tinha que socar arroz no pilão para o almoço, tarefa das mais difíceis para uma mulher grávida, cuidava das crianças e lavava roupas no rio, alem de deixar água para tomar banho de toda a família, e fazer o jantar, depois de toda esta labuta, sentava a maquina de costura e ainda costurava para fora, era uma boa costureira e a noite sob luz de lamparina, ficava até não se agüentar mais de cansada, mas estava animada com a perspectiva, e tinha ainda a preocupação da hora do parto, a casa da cidade era uma casa velha e ela não tinha tido tempo de vê-la, e como sua mãe ficaria com ela no último mês, foi arrumando devagar tudo que era possível levar, naquele dia ela levantara cedo, pois faria os últimos arranjos, fazer mamadeira para a Cidinha, juntar as tralhas da cozinha, colocar as crianças na charrete e levá-las para uma vida nova, e pensava no quanto tinha sido dura a vida no sitio, mas era grata ao marido, pois ela sempre uma vez por ano ia visitar a Aparecida do Norte, viagem feita de trem que saia de Marília e desembarcava na  Estação do Norte em São Paulo, a primeira viagem foi um ano após o casamento, viajaram com o sogro Silvestre, e no meio do caminho Isaque resolveu ir até Santos, ela iria conhecer o mar, era muito mais do que imaginava, uma menina da roça, órfã de pai desde o nascimento e hoje casada estava viajando para conhecer o mar, absorta nos seus pensamentos retroativos de sua vida nem percebeu que o filho Zezinho, havia tido um desmaio, só ouvira uns gritos de crianças e desceu a escada da casa de madeira que dentro em pouco não mais habitaria, e  correu como louca até onde estava tamanho reboliço, pegou o menino nos braços levou até uma sombra da casa deitou no chão duro e subiu em desabalada carreira as escadas para fazer um chá, para reanimá-lo, o menino tinha mesmo estes desmaios  e nem mesmo a gravidez avançada impedia que ela fosse bem ligeiro  reanimaria o filho para que fosse embora de uma vez daquele lugar, pensava que não era um lugar de muita saúde, até mesmo ela nunca teve muita saúde, preparou um chá e levou até onde o menino estava, deu uns tapinhas no rosto vermelho, e o menino  melhorou.
       Zezinho era um menino com cinco anos, tinha saúde delicada, há alguns anos atrás teve um problema  grave nos rins, nefrite, foi desenganada pelo médico.
         Dr. Fuad  medico da cidade vizinha o tratou, mas avisou que só um milagre o salvaria, ele ficou muito inchado que mal abria os olhos, assim que melhorou por conta das inúmeras promessas feitas, chá, benzimento, logo que saiu da cama já brincando com os irmãos, a mãe olhava admirada pela beleza do menino,  pele bem clara, olhos azuis, lábios bem definidos, era  muito inteligente e valeu a pena tantas rezas para salvá-lo, dizia a todos que foi o chá de folha de abacate que salvara o seu menino, mas o ataque como ela mesma dizia não cessava a qualquer hora ele desmaiava.
           Lina não tinha tempo para lagrimas, o bom mesmo era ir embora e uma nova vida ia iniciar morar na cidade, lá quem sabe teria menos trabalho, terminou de arrumar tudo no carroção puxado com quatro parelhas de boi, Isaque com seu filho mais velho foram ao encontro de uma nova vida, e Lina mais atrás com a charrete levava seus  quatro filhos menores e o velho baú da falecida, que seu marido insistia em guardar mesmo depois de  tantos anos de casamento. A cidade era perto uns cinco km  e era margeada por grandes matas fechadas não exploradas ainda pelo sitiante, e era uma caminhada perigosa, que vez ou outra era interrompida pelos barulhos dos macacos nas arvores, que deixava todos assustados, as crianças pequenas sentadas no chão da charrete e a Nana e o Pedro acompanhava a mãe sentados no banco, de quando em quando o cavalo ficava nervoso com uivos de onças no  mato, e Lina chicoteava o animal para que saíssem logo da mata. Muito em breve tudo aquilo seria esquecido, e um pavor passou por seu espírito, afinal seus dois filhos mais velhos seguiam todos os dias por este mesmo caminho para ir à escola da cidade, agora já avistou  o cemitério da pequena cidade era a maior propriedade local, do alto da estrada ela visualizou as pequenas sepulturas cobertas com montes de terra e naquele momento lembrou-se da sepultura de seu pai e avós que lá estavam enterrados há muito tempo, desceu à estradinha que dava acesso a cidade e quando chegou à cima da ponte, entregou a rédea do cavalo ao Pedro seu filho de sete anos e desceram, as crianças que estavam sentadas no chão da charrete já imaginavam que havia chegado, mas tudo o que virão foi sua mãe pegar o baú com tudo o que havia dentro ser jogado dentro do Rio Pari nunca mais ser encontrado, com duas tapas na mão, deu-se por satisfeita subiu na charrete e chegou à casa que hoje era sua...

                                                                               Vila de Piratininga
  Estavam fazendo seu primeiro varal de roupas, e Lina pensou que poderiam vir ajudá-la com as crianças, ela afinal estava no quinto mês de gravidez, e  desde muito cedo estava trabalhalhando transportando as crianças, e agora fazendo o almoço naquela casa nova que de nova não tinha nada, mas era sua  casa pela expressão do marido era um verdadeiro palácio, não havia portas na entrada da casa e uma tabua foi colocada para impedir algum cão entrar.  Matutando Lina pensou: como iria dormir na casa sem porta da frente, Isaque era homem acostumado a dormir em acampamento, na estrada em cima da capa de boiadeiro, forrado só com o pelego dos animais, isso para ele não era problema, dormiria como um príncipe  argumentou. Abanando a cabeça desconsolada ela continuou com a tarefa de arrumar a casa antes da noite chegar, era mês de janeiro e no horizonte o relâmpago a cada hora se aproximava mais, e a noitinha uma chuvarada caiu sobre a pequena cidade e Isaque disse que era sorte. Ascenderam às lamparinas, esquentou água no fogão a lenha que estava começando a esburacar e pensou que no dia seguinte  buscaria barro no rio para consertá-lo, as crianças cansadas choramingavam pelos cantos com fome e vontade de dormir, e mais que depressa preparou uma sopa de legumes com fubá e depois de se alimentar  já com os colchões no chão, todos foram dormir. Lina não conseguiu dormir pensando na porta encostada com uma tabua, mas Isaque roncou a noite para  desgosto. O dia amanheceu e depois de um pequeno café já saiu bem cedo com os meninos para trazer o restante da mudança, algumas galinhas e  frutas. Na  agora do almoço anunciou para todos que na próxima semana abriria um negocio na parte da frente da casa
       Estupefata Lina perguntou: Quem irá cuidar deste negocio e ele prontamente respondeu  que era ela, Lina só não desmaiou porque não era mulher destas coisas, e disse: não sei ler nem escrever como vou saber o preço e  fazer troco! Isaque disse sem se perturbar, para isso que temos o Antonio e a  Nena que já sabem tudo de escola, vão nos ajudar e vai dar certo, tenho tudo na cabeça, vou continuar mascateando e  vc cuida da venda.
       E foi assim que tudo começou, levantava de manhã e ia para a venda, já tinha freguês esperando, as crianças ficaram a mercê da sorte, faziam o que queriam, pois a mãe além de grávida nem tinha tempo para nada, o trabalho dobrou, agora tinha mais trabalho do que antes, mal teve tempo de fazer umas roupinhas para a criança que ia nascer Isaque sempre que podia levava Cidinha para visitar a madrinha que a tratava com mimos e presentes. Era uma verdadeira princesa, sua mãe penteava seus belos cabelos louros e com uma fita branca com um laço bem bonito , sapatos pretos com lacinho em cima, ela ia toda faceira a casa da madrinha que muitas vezes tocava piano para educar seus ouvidos com boa música. O mês de março chegou com uma brisa fria, era o primeiro outono em Piratininga, e não sabia como o tempo se comportava ali, mas sentiu que era mais frio e ventava mais, teria que fazer agasalhos para as crianças, agora com a venda, havia muitos sacos de algodão vinham com açúcar cristal e Lina tratou de lavá-los bem e fez muitas camisas e vestidos para as meninas, e com os sacos de farinha de trigo, não faltariam fraldas para criança que estava por nascer. O comercio ia  muito bem, e Lina gostou deste trabalho, muitas vezes passou fome durante a 1ª guerra mundial e depois a revolução de 1932, que quase morreu com vontade de comer arroz, depois a segunda guerra mundial, onde não havia alimentos e o único açúcar era que fabricavam no sitio, sal nestes tempos era artigo de luxo, Isaque mesmo teve que esconder-se na mata fechada para proteger as compras feitas em Marília de malfeitores na estrada, e agora ela com toda essa fartura, tinham mais era que agradecer a  Deus por tudo. Chegou até em alguns momentos a esquecer por alguns momentos que foi negociada e trapaceada pelo irmão mais velho por ocasião do seu casamento e de sua irmã, tirando-lhe sua parte na herança de seu pai.
       Faria quatro meses que estava na vila e mandou avisar sua mãe que viesse que o bebê estava próximo de nascer, Sinhá Bina, mulher muito conservadora arrumou seu cavalo arreado com sela apropriado para mulheres e a distância da Água do Sapé  era pequena, mas estrada ruim e estreita, margeada com mata fechada, tornava a viagem cansativa, entrou na cidade apreensiva com mais um neto a caminho e lembrou-se dos partos difícil de sua filha e rezou para que tudo desse certo mais uma vez, uma lembrança triste passou por sua mente quando do quarto filho de Lina que não nascia e depois de 18 horas de parto o bebê nasceu  primeiro as pernas e depois de algum tempo vieram os braços o bebê nasceu , coisa difícil de imaginar, ela mesma nunca tinha assistido um parto daqueles, quando puxou o bebê seus bracinhos frágeis se quebraram no momento do nascimento culminando com a morte do bebê, salvando sua filha, mas isso jamais saiu de sua cabeça, não poderia esquecer jamais , quando pegou nos braços a pequena menina, tinha covinhas na face, muito loira com um bela cabeça toda coberta com fios dourados foi uma dor mortal para todos, arrumou a pequena criança embrulhou em uma manta de flanela, deixando só o rostinho de fora e colocou-a sobre a mesa da sala para o velório, Isaque pediu a Antonio que avisasse os vizinhos e desceu lentamente a escada que dava para o porão a fim de fazer o caixão da filha, ajeitou os sarrafos , pregos, mortalhas que ele proprio tinha  para vender, escolheu os mais bonitos e devagar sem pressa  fez o pequeno caixão, forrou com pano de mortalha branco e uma vez pronto , subiu as escadas que davam para a cozinha e encontrou café quente no bule, bebeu um pouco e disse a sogra : se fosse homem de beber bebida alcolica hoje seria o dia certo para esquecer isso que aconteceu aqui,  no outro dia bem cedo, antes do sol nascer, despediram-se da criança como era o costume da época, rezaram um terço e perguntaram para ele como era o nome da menina e ele disse mais que depressa: Maria Paula ! O terço acabado pegou o corpinho da menina duro pela rigidez  da morte colocou-a dentro do pequeno caixão cobriu com flores do jardim e colocou na charrete e com seu filho Antonio levou-a para a cidade e enterrou-a. Isaque que tinha um temperamento alegre, por muitos dias cabisbaixos lamentou a morte de filha tão bonita e sadia, a recuperação de Lina foi lenta e demorada, e lembrando que passou dois meses na casa da filha cuidando de todos. E com um sorriso triste chegou à casa da filha, olhou e a viu com uma imensa  barriga disfarçada por um vestido de algodão, que fora aproveitado de outra gravidez, deixando a parte da frente do vestido um pouco mais curto por conta da barriga. Estava abatida e Sinhá Lina achou que o parto seria para esta semana, e foi ajudar nas tarefas e Lina continuou no balcão. O último dia de abril chegou com um dia cinzento, uma garoa desde a primeira hora da manhã indicava que tinha invernado e ela estava mal disposta naquele dia, mas atendeu os fregueses e Isaque estava no sitio, era sexta feira e no dia seguinte ele teria que ter muitas variedades de verduras e legumes para vender. Sinhá Bina escolhia feijão na cozinha e olhava Cidinha que estava gripada e seu nariz escorria, dando-lhe um xarope preparado com muitas ervas, quando de repente um choro de bebê foi ouvido, ela mais que depressa correu em direção do som, e Lina disse-lhe: Mãe cuidado para não pisar na criança! O bebê havia nascido no chão frio de cimento, e ela mal teve tempo de ampará-lo, e só ajoelhou e esperou a ajuda da mãe que a levou para o quarto e a menina foi cuidada, era saudável e não tinha defeito , a primeira coisa que a parteira olhava era os defeitos depois vinha a satisfação de um parto tão bom. Isaque quando chegou do sitio encontrou o armazem fechado e fez um alvoroço tão grande que deixou toda a família atônita, falava alto, gritava mesmo, e nervoso dizia que as coisas não andavam se não tivesse por perto, e no quintal da chácara ouvia-se o seu tom de falar alto e esbravejar como se fossem matar uns seis pelo menos, avistou a sogra na porta da cozinha, falando baixo e dizendo-lhe que o bebê havia nascido bem e que a Lina estava ótima. Ele esqueceu completamente o escândalo que fazia por nada  entrou louco de curiosidade para ver o bebê, ele adorava crianças, sua própria mãe tivera 16 filhos, e ele  radiante de felicidade entrou no quarto onde uma lamparina estava acesa no canto da parede e olhou para a mulher e depois foi ver a menina, e disse vou registrar, e saiu em desabalada carreira e na próxima esquina tinha um cartório e oficializou o nascimento sem antes contar para todos que nasceu mais uma filha, coisa pouco agradável, pois preferia filhos homens que podiam trabalhar na lavoura, mulher só dava trabalho e ainda teria que casá-la cedo. Um infortúnio para o pai. Mas estava lá e tinha que criá-la e era bem bonita e gordinha e satisfeito como estava, deixou de lado os pormenores desagradáveis de ter uma filha e foi para casa.

                                                          Maria Antonia  1954
      Esse era o nome da menina, quando chegou e contou para Lina , ela ficou alarmada com tamanho desproposito, achou o nome horrível, desagradável, lembrava de uma fulana que nem gostava de pensar, e Isaque teve a coragem de registrar a menina com este nome, e ele disse: bobagem esse nome é bonito, sou devoto de Santo Antonio e já tive dois filhos Antonio, um morreu era o filho com a falecida, o outro é nosso Antonio e agora Maria Antonia, e é nome de mulher trabalhadeira, e se tiver mais algum ainda vou por mais um Antonio na família, promessa mais tarde cumprida com o irmão caçula, esse embate só terminou com a intervenção de Sinhá Lina que achou que Lina ia acabar quebrando o resguardo com aquela bate boca no dia do parto.
       Maria Antonia pagou caro por ter este nome, sua mãe a rejeitou desde aquele momento, inconscientemente a rejeitou ! Simplesmente foi deixada de lado e sua irmã Nena que cuidou, Lina se recuperou do parto rapidamente e dois meses depois começou a  alimentar a criança com mamadeira, mas como a criança ficava na cama o tempo inteiro sem os cuidados necessários, não desenvolvia bem e oito meses depois de nascida, Sr Inácio, um vizinho perguntou a Lina se a criança que havia nascido tinha algum problema de saúde, pois desde que nasceu ninguém a tinha visto ainda, e Lina no outro dia pegou a menina, sentou-a na cadeira e amarrou seu corpo com uma faixa para que não caíssem e assim acabar com os falatórios.
         O bebê ali mesmo era alimentado e entre um freguês e outro um pirulito era entregue em sua mão para que não chorasse e dormia e acordava sempre ali. Certo dia sua mãe soltou-a para que aprendesse a engatinhar e foi assim que ela começou a viver, aprendeu  andar, roubar doces de seus pais, subindo na mesma cadeira tão conhecida e comendo quantos doces conseguia engolir. Sua mãe não cansava de dizer a todos que ela era a única moreninha da família, e sempre era lembrada que Cidinha era o mimo da família, de beleza sem igual, e isso fazia com que a cada dia ela ficasse mais introspectiva com a família, isolada do grupo familiar acabou ficando arredia e desconfiada, até fotos antigas ela mantém aquele olhar distante.
       A casa em que morava era  bem grande casa antiga que pertenceu a uma família que havia ido embora da região e fora comprada por uma bagatela, a  propriedade era grande com um rio que passava no fundo, a mata ciliar crescia espontaneamente e criava um lugar bem refrescante nas tardes ensolaradas de verão, mas era proibido para as crianças passear por lá, tamanho o perigo que havia cobras e jacarés infestavam a região, e ainda tinha as assombrações que éram temidas por todos, nunca ninguém viu uma sequer, porém todos diziam que existia, e isso bastava para Maria Antonia que tinha medo de tudo e todo o terreno era ligeiramente inclinado e alguns barrancos surgiam a todo entanto e servia de local de brincadeiras. No entanto era pequena ainda e precisava de alguém para cuidá-la e foi chamada a Fiona com 15 anos para ser a babá, pois Lina estava grávida de novo, e foi uma gravidez de risco, estava debilitada e cansada, tinha tido mais de 10 filhos, alguns morreram bebês e a sua caçula mal completava um ano e já tinha outro a caminho, isso desanimou Lina, gostava de trabalhar no armazém e outro filho a deixaria fora do trabalho por um mês, durante o resguardo, a gravidez foi difícil e o parto transcorreu de uma forma imprevisível, a hemorragia chegou antes de o bebê nascer e com isso mais uma vez seu filho nascia morto. Aquela tarefa de ir registrar um bebê morto era muito desconfortante e pensava que estas tarefas difíceis era trabalho para homem, e voltou com o registro de nascimento e autorização para o sepultamento, o menino recebeu o nome de Sebastião, foi o único nome que surgiu naquele momento, ninguém se importou ou comentou, estavam agora todos na sala de visita com o corpo da pequena criança em cima da mesa, onde foi colocado um lençol de algodão cru, alvejado pela mãe a espera do pequeno caixão que estava sendo feito no fundo do quintal pelo próprio pai e com um zelo e tristeza infinita terminou e com todo o cuidado Isaque colocou o filho e sua sogra cobriu de flores. Ele que sempre foi forte e destemido se rendia a tristeza da morte, lembrando da sua terra natal, onde muitos irmãos morreram ao nascer e agora o seu próprio infortúnio por enterrar seus filhos, tarefa que Lina nunca participou, pois estava sempre acamada quando isso ocorria e mais uma vez o bebê foi colocado naquela mesa da sala e no dia seguinte colocado no pequeno caixão agora pintado com uma camada de cal, que deixou todo branco, e depois que umas rosas colhidas no jardim, despediram daquele pequeno corpo agora branco como mármore, a pequena boca arroxeada, em um último olhar para o menino Isaque levou para o cemitério agora acompanhado pela sogra e pelos filhos maiores que carregavam o pequeno caixão. Uma tradição que insistiam em manter que criança é que tem que carregar caixão de criança, tarefa esta que Maria Antonia, mais tarde detestava fazer.

                                                          A  MORTE  DE SILVESTRE-  1956

          A guerra havia acabado fazia 11 anos e parece que a paz veio para ficar, ora ou outra, pessoas de país da Europa estabeleciam por aqui, e Isaque sempre com aquele seu jeito despojado de ser, recebia a todos com alegria, criando laços de amizade com todos e agora já com tantos filhos e sua mulher não tinha mais saúde para cuidar dos negócios, parou de mascatear para desgosto seu e ficou só com o armazém, e com uma surpresa desagradável Lina estava grávida novamente e agora temia por sua vida, que faria se morresse qualquer hora destas de parto ? Como faria com tantos filhos? Perguntas que martelavam na sua cabeça, e enquanto ela cuidava da casa, chamou sua sogra que viesse ajudá-la nas tarefas mais difícil. Um dia de manhã bem cedo, bateram na porta e era a policia que recebeu um telegrama de seu irmão João, que seu pai Sivestre, havia morrido em São Paulo, e sem saber o que fazer, desorientado fechou o armazém e naquele dia não trabalhou, todos na casa ficaram de luto, os filhos não foram à escola, e Isaque com um terço na mão rezou um para seu pai, e pensando na mãe que agora estava sozinha, com os filhos todos casados. Foi um dia singular naquela casa, onde o luto era muito comum, pois vários pequenos  morreram porem agora eram diferente, as cortinas não abriram, o radio não foi ligado por meses, risos e cantorias não fazia mais parte do repertório de Isaque que sempre foi um homem alegre e despretensioso. O outono chegou com o nascimento do menino Luís. Manoel voltou a sorrir, sempre ficava feliz com o nascimento de menino, e este era o último, Lina entrou em trabalho de parto em um dia nublado e frio, e sua mãe pediu a Isaque. que fosse chamar outra parteira Dona Sebastiana, famosa na região em fazer partos muito difíceis e aquele seria complicado, pois Lina há muitos dias não saia da cama, não se alimentava direito e o cansaço tomou conta do seu corpo e a mãe temia por sua vida, e os mexericos na cidade era que ela não ia agüentar o trabalho de parto, muitos cha foram feitos na cozinha para dar forças a ela, mas  de nada adiantou e Dona Sebastiana, parteira  experiente preparou um elixir e deu a Lina que logo após deu a luz um menino. Naquele dia Isaque agradeceu a Deus por ter salvado sua mulher e depois de uma recuperação lenta ela voltou à lida da casa, mas sua saúde agora era ruim.


                                                                A doença 1959

Lina estava doente, muitos anos trabalhando na lavoura ajudando a mãe, lavando roupa no rio, fazendo rapadura para ajudar nas despesas da casa, depois de casada o trabalho pesado no sitio, muitas vezes levantando a noite para recolher os porcos no chiqueiro, apartar bezerros, tirar leite, fazer queijos e ainda costurar para as freguesas, enquanto seu marido passava semana mascateando por toda a região, na maioria das vezes ela estava grávida, seus filhos nascia de dois em dois anos, e ela mal tinha tempo para comer e descansar lembrava-se do tempo que socava arroz no pilão para tratar de empregados na colheita de algodão, e torrava café colhido ali mesmo no sitio, plantava feijão para o uso da família, havia a horta para regar todo o dia, com regador, e a água era tirada de um poço que Isaque mandou fazer perto da casa, para facilitar a lida do dia, e as crianças viviam doentes, agora tudo isso pesava como uma dor insuportável que sentia na barriga. Mal conseguia subir os degraus da cozinha, estava pálida e abatida e sem saber mais o que fazer, descobriu que esperava mais um bebê, era demais para ela, pensou: acho que agora eu não agüento, vou morrer, e na hora do almoço olhou para seus filhos pequenos em volta da mesa do almoço e  uma dor profunda passou em seu coração. Seu filho mais velho agora com 15 anos era um rapaz forte e bonito, Nena tinha 13 anos, e estava se tornando uma adolescente muito bonita, tinha os olhos verdes, ela era um tanto gordinha, mas seus cabelos castanhos claros e seus olhos verdes emolduravam aquele rosto dando-lhe uma expressão de quem estava sempre de mau humor, Pedro tinha os olhos azuis e cabelos louros que caiam na testa, e seu nariz e boca muito bem feita  daria trabalho com as moças da cidade quando fosse o tempo, só tinha 11 anos e era bem bonito, Zezinho, este tinha uma beleza extraordinária, parecido com o pai, seus olhos azuis de um tom muito claro e nariz e boca muito bonita, era alto e esbelto, com nove anos já demonstrava atitude em todas as horas com a família, e Cidinha agora com sete anos, loura, sempre com uma fita prendendo seus longos cabelos, seus olhos azuis e pele tão branca dava um ar de boneca de porcelana, sempre muito mimada pelos pais, por conta de ser afilhada do Dr. Milton e Dona Clara, tinha muitas vezes um olhar petulante e tinha um ar de superioridade em relação aos demais irmãos. Maria Antonia sempre olhada com menosprezo pela mãe por conta do nome tão detestado, e os irmãos percebendo isso a tratavam com certo desprezo, mas naquele momento pouco se lembrava disso isto quando havia alguma briga por conta de uma  arte da mesma, e agora o pequeno menino Luis, e olhando cada uma das lagrimas que desciam pelo seu rosto, imaginando que teria que deixá-los para o pai cuidar caso morresse.
                        
                                                          O CAMINHÃO DE MANDIOCA
    Os meses foram passando e a cada dia Lina estava pior, seis meses se passaram e agora estava magra demais e a barriga era pequena e o bebê parou de se movimentar, ela comentou com o marido que não estava bem e que iria se deitar um pouco, ele muito preocupado com seu estado foi junto e quando entrou no quarto a hemorragia havia começado deixando um rastro de sangue por todo o quarto. Isaque saiu correndo em busca do farmacêutico, avisando como ela estava e ambos desceram a ladeira correndo e aplicou uma injeção em Lina, mas vendo o estado em que se encontrava , disse a Isaque que a levasse ao hospital, pois morreria rápido se ali ficasse. Isaque agora desesperado, pois na cidade não havia carros, e na charrete levaria pelo menos umas 3 hora de viagem até Palmital, morreria na estrada pensou. Quando ouviu um ronco de caminhão carregado de mandioca para ser levado para a fabrica de farinha. Era o Antonio Marciano a única pessoa que tinha caminhão naquela região, de braços abertos no meio da rua de terra batida, pediu para o caminhoneiro que levasse sua esposa ao hospital, pois estava morrendo, mais que depressa o ajudante de caminhão ajudou Isaque a pegar a  esposa enrolada em um cobertor e entrou na cabine com ela sobre o seu colo e foram direto para o hospital. Uma hora depois entrava quase sem vida e foi direto para a sala de cirurgia, onde foi operadas as pressas, o feto foi retirado e o medico se deparou com um mioma enorme, e foi o causador da doença prolongada e do aborto.
                                                                  A CIRURGIA
  Lina não estava bem e o medico reconheceu isso no primeiro momento em que a viu, e chamou o Dr. Mario para que viesse ajudá-lo naquela operação que temia não teria um bom resultado, quando ambos viram o quão difícil era, convocou as pressas alguém que tivesse o tipo sanguíneo de Lina, os exames de sangue foram feitos ali no hospital, tamanha a urgência que o caso precisava, e Eleazar agora morando em Palmital era a única pessoa que podia ser o doador, naquele tempo não era comum doadores de sangue e por um milagre Eleazar havia feito uma pequena cirurgia no hospital e Dr. Mario mandou buscá-lo com urgência, e ele ficou de prontidão esperando o momento da doação, nesse intervalo durante a operação, foi solicitado à enfermeira que fosse buscar uma bolsa de sangue, e por engano ela pegou a bolsa errada e aplicou na veia. Lina naquele momento entrou em coma, recebendo sangue errado, o medico percebeu na hora e olhou e logo viu que não era o sangue do tipo Universal, e a única pessoa doadora deste tipo sanguíneo era o Eleazar e a transfusão de sangue certo foi feita e Eleazar naquele dia não voltou para casa, ficou no hospital a disposição dos médicos para uma eventual necessidade o desespero dos médicos foi total, não a salvaria, só um milagre. Eleazar ali deitado em períodos  de descanso doava sangue e em estado de coma profundo agora Lina dependia de um milagre. Uma junta medica foi formada e descartaram qualquer possibilidade de recuperação, era questão de horas. E mandaram um recado para Platina que levassem os filhos para se despedir da mãe. À noite as crianças chegaram ao hospital acompanhado pelo irmão mais velho e todos entraram na quarto onde Lina estava. Em silêncio as crianças olharam sem entender ao certo o que estava acontecendo e com um beijo todos se despediram e sairam, no corredor do hospital encontraram a esposa do medico que vinha fazer uma visita e viu todas aquelas crianças e uma dor no peito,  lagrima grossas correrem pelo seu rosto, especialmente os dois menores, irem embora deixando a mãe que com certeza não a veria mais com vida tamanha a gravidade de seu estado, o padre foi chamado para a extrema unçao, último sacramento a uma pessoa. Dona Martinha foi a Igreja de Santo Antonio, pois era mês de junho e havia a festa do padroeiro da cidade e lá estava sendo feito os pães que seríamos distribuídos no dia seguinte na festa. Ela pediu um pão e passou no altar do Santíssimo e suplicou em favor da vida de Lina: Pediu a Nossa Senhora do Carmo que salvasse a vida de Lina por amor aquelas crianças que ficariam sem a mãe e que faria uma procissão em honra a  Nossa Senhora do Carmo. Essa promessa foi feita aos pés do Santíssimo que ela cumpriria em Platina na Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Deixou a igreja e foi para o hospital e lá chegando foi direto falar com seu marido Dr. Fuad e perguntou como estava e desanimado só abanou a cabeça e disse-lhe é questão de tempo. A casa de Dona Martinha e Dr. Fuad ficavam nos fundos do hospital, fazendo frente para outra rua, mas havia um corredor que dava acesso ao hospital, era uma forma de chegar mais rápido  e assim Dona Martinha voltou para sua casa, mas não conseguiu dormir aquela noite temendo uma noticia ruim e como falaria para a família que havia sido trocado o sangue da paciente e que seu estado era gravíssimo, só mesmo um milagre a salvaria. De madrugada Dr. Fuad e Dr. Mario decidiram fazer mais uma transfusão de sangue e perceberam que ouve uma reação por parte da paciente. O dia amanheceu e Lina continuava em coma e por um mês ela ficou em coma profundo, e as orações na igreja comandada pela esposa do médico todos os dias eram feitas e a cada dia mais pessoas iam à igreja para pedir a saúde de Lina.  Como em todas as manhãs Dona Martinha estava cedo visitando Lina e sempre levava o pão de Santo Antonio na esperança de que um dia ela pudesse comer, naquela manhã quando ela entrou no quarto, Lina abriu os olhos  e os fechou novamente, e Dona Martinha saiu em desabalada carreira para chamar o marido que estava em consulta com outra paciente no consultório, ele levantou-se rapidamente e foi  examinando, percebeu que a pressão estava melhor e os batimentos cardíacos estavam normalizando e ambos choraram de alegria. Dona Martinha tirou do pequeno pires um pedacinho de pão de Santo Antonio e molhou em um pouco de água e colocou na boca deixando que aquela água escorresse devagar entre os dentes de Lina. Desde então Lina foi se recuperando e após 40 dias de hospital recebeu alta para a felicidade de todo os médicos e enfermeiras e das mulheres do grupo de oração da Igreja de Santo Antonio.
                                                                  UM ANO SE PASSOU 
     Final de ano o movimento do armazém  aumentou muito, uma clientela enorme e Isaque decidiu que era hora de mudar, soube que a família Leone estava vendendo um ponto comercial com uma boa casa de morada em frente à praça da cidade e era um ponto espetacular, ficava na esquina da rua principal passagem de todos os moradores da cidade e região, conversou com Lina e depois de muito barganhar efetuou o negocio e decidiu que mudariam na primeira semana de janeiro de 1960, o salão comercial era muito bom, já estava praticamente pronto, pois já era no passado uma venda e transformar em armazém foi fácil, os filhos mais velhos ficaram deslumbrados com a possibilidade de morar em frente à praça e as crianças estavam animadas por conta da alegria da familia, toda a casa foi pintada de branco, e no dia 8 de janeiro transportaram a mudança para o novo lar, enquanto os mais jovens descobriam as curiosidades das coisas, os mais velhos trabalhavam para por tudo em ordem, quanto Isaque falando alto e muitas vezes praguejando coisa que deixava Lina irritada. O dia terminou com tudo em ordem e a fez lembrar-se da mudança do sitio para Platina, fizera tudo sozinha  e jurou a si mesma que jamais mudaria de novo, e com um sorriso os lábios arrumou a cama no quarto da frente que dava para a rua principal e todos foram dormir a luz de lamparina, pois a cidade não havia luz elétrica.
      A primeira manhã na rua principal em frente à praça foi uma coisa fora do normal, a casa cheirava tinta fresca, as portas eram de batente bem alto e uma tranca de ferro era a única coisa que selava a porta a noite, tudo isso foi observado por Lina enquanto varria o armazem, que Isaque insistia em abrir às 6 horas da manhã, e sempre uma discussão saia por conta da teimosia de ambos, e quando o sino da matriz badalou seis horas, Isaque abriu pela primeira vez as portas do armazém e para sua surpresa, seu Juquinha do correio veio ter uma prosa com ele, e cheio de arrogância olhou de esguio para Lina que fulminou ele com um olhar de poucos amigos. Lina havia mudado muito desde a operação, andava nervosa e temperamental, tinha crises de nervos e agredia as crianças, dando-lhes surras muitas desnecessárias.
  
                                 _______________ O CASAMENTO DA FILHA _________________
                                                                              1961
       Os pais não aprovavam o casamento, mas Nena era teimosa, começou um namorico com um jovem muito trabalhador e de família muito conhecida na vila, mas por temor de ver sua filha ir morar no campo, ter quem sabe uma vida dura como ela teve, proibiu o namoro, mas ainda assim Nena namorava escondida e conversou com Isaque, que o melhor a fazer era casá-la com o rapaz, poderia ser que decidissem fugir e seria uma vergonha.
       Assim o rapaz foi convidado para uma visita e após uma longa conversa ficou decidido que fariam o casamento em maio, era o mês das noivas e daria tempo de preparar o enxoval. Nena ficou feliz afinal iria se casar e iria embora da casa dos pais, nunca se dera bem com a mãe, as duas não passavam nas mesmas porta sem que um atrito surgisse, Nena com um temperamento introspectivo e a mãe dona de outro dos mais violentos quando com raiva e uma surra de vara de bambu ou qualquer outra coisa ela usava para açoitar os filhos. Lina tinha depressão pós parto e nunca foi tratada, por ignorância e preconceito, descontava toda sua ira na filha mais velha e em Maria Antonia, ambas foram rejeitadas quando pequenas, Nena porque nasceu durante a estadia de uma empregada rural que segundo Lina teve um caso extra conjugal com Isaque, e a pobre menina foi amamentada por esta mulher, e Lina sentiu uma raiva descomunal da mulher e pelo resto da vida tratou a menina com grosseria e ambas eram pessoas difíceis e agora surgiu a oportunidade de Nena escapar das surras. Tudo foi preparado como Lina queria, um vestido branco longo com renda francesa, uma tiara de prata sobre seus cabelos castanhos e longos, um pouco cacheado, seus olhos verdes tão belos exibia um ar de tristeza sem um sorriso durante a cerimônia da igreja e as fotos tradicionais na porta da igreja a cerimônia foi encerrada.
      Foram para o salão onde os convidados foram recebidos para um almoço, depois o casal foi em lua de mel para Aparecida do Norte onde o vestido foi doado a Nossa Senhora de Aparecida. Quando voltou da viagem ele voltou a trabalhar no campo e em um destes dias de sorte alguém o convidou para trabalhar na capital, era uma época de muitos empregos e davam preferência para os homens do interior e do nordeste do Brasil.
     E assim Nena e Roberto seguiu para São Paulo com emprego garantido e uma nova família começava agora Nena levava seu primeiro filho na barriga.

                      
                                                    ------------------------- Toda a ira de Lina se voltou para Maria Antonia-------------------------------

       Tônia havia completado oito anos, e seus irmãos mais velhos lhe  havia dado o apelido de Tônia, e alguns amigos a chamavam de Tônia coisa que odiava e a deixava em posição de inferioridade com seus irmãos, mas com medo de ser repreendida por sua mãe aceitava e assim ficou aniversários não foram festejados na casa de Lina e Isaque, as crianças nasciam e seus registros de nascimento eram guardados em uma mala antiga de viagem, assim como todos os documentos da família, e jamais eram retirados de lá, uma vez que o casal era analfabeto e uma vez guardados ficavam para sempre. Se alguém precisasse de um documento ia ao cartório e tirava uma segunda via, era pratico e não incomodava o casal, e assim foi no casamento de Nena, que na hora de assinar a certidão de casamento descobriu que o pai não lhe dera o nome da família, e agora usaria o  nome do marido e mais uma magoa estava guardada a sete chaves no coração de Nena. Mas Tônia era uma menina diferente de Nena, apanhava mais e tudo o que acontecia na casa era alguma travessura feita por Tônia, o medo que sentia da mãe atrapalhava na escola, tinha péssimos resultados e quanto mais se dedicava menos aprendia, e as notas péssimas era motivo de chacotas dos colegas de classe, alguns diziam que era burra outros lerda e só agravou o problema de dislexia, que na época não se sabia ao certo o porquê da falta de encanto pela escola, a trancos e barrancos foi superando as primeiras dificuldades e na terceira serie não passou de ano, e por conta disso levou uma surra daquelas, os nomes atribuídos a ela pela ignorância, falta de inteligência etc., a jogou em um mundo onde teria que ser bela, loura, olhos azuis, e ter boas notas na escola, e por mais que quisesse não conseguia. Quando entrou na quarta serie disse a si mesma que seria seu último suplício. Terminaria o ano e jamais pisaria em uma escola, essa determinação em concluir o ano a fez passar com media 5,5 e estava fora da escola. Acabou o suplicio para Tônia.

                                                                                                                                   Anos  60
          Maria Antonia era uma criança arredia, com 10 anos de idade, era muito travessa, desde que nasceu viveu perto do pai que a protegia de sua mãe que a surrava por qualquer coisa, e Isaque admirava a filha, pois tinha todas as virtudes que gostava em uma menina, era trabalhadeira, e quando solicitava uma ferramenta para o trabalho ela saia em disparada para buscar e sempre era a primeira a se levantar e estava sempre a ajudar no armazém, não era vaidosa, muitas vezes aparecia descabelada na loja da mãe e muitas vezes levavam bons puxões de orelhas por conta disso, mas era pequena ainda e como a terra era vermelha sempre tinha os pés encardidos por andar sempre descalça, era bem rústica para uma menina, mantinha um ressentimento por sua irmã ser mais bonita e mais admirada que ela e os pais poupassem a irmã de todo o trabalho e todo o trabalho era feito por Tônia. Em 1964 um telegrama chegou avisando Isaque que seu filho Miro havia falecido em outro estado, foi um alvoroço na família, ninguém sabia ao certo o que havia acontecido, pois Miro era casado e tinha muitos filhos e era protestante. Isaque foi até o policial que havia trazido o telegrama para saber mais noticias a respeito e foi notificado que Miro fora assassinado com um tiro e chegou morto no Hospital. Isaque fechou o comercio e foi até seu quarto e lamentou a morte do filho do primeiro casamento, eles nunca se deram bem, existia uma inimizade gratuita entre eles e Lina fazia parte desta indisposição familiar, mas os mais jovens dos irmãos nada sabiam a respeito destes eventos do passado e queriam ir para achar o assassino e matá-lo. Isaque disse para os três filhos homens que estavam determinados a buscar o assassino em qualquer lugar que estivesse e os proibiu de ir ao velório, muito mais por conta da distância e por algum entrevero que houvesse por lá. Isaque disse com firmeza, qual já bastava um morto e assim foi encerrado este assunto, mas Tônia naquele dia lembrou-se do irmão Miro com saudades, era seu irmão por parte de pai e ele era muito lindo, Miro era alto com mais de um metro e noventa de altura, olhos azuis, boca muito bem feita, tinha um jeito despojado de ser e gostava de pega-la e brincar de cavalinho no seu pescoço e ia de lá par cá com Tônia e Luis Antonio, os dois irmãos menores e que saudade Tônia sentia agora que não o veria mais. O sofrimento silencioso de Tônia foi sentido pela família, emagreceu, não queria se alimentar, Lina deu vermífugo, Licor de cacau todos os dias, mas ninguém perguntou o que tinha realmente. Tônia estava de luto por seu irmão que tanto amava. O tempo passou e as feridas foram fechadas e com onze anos já quase mocinha, Isaque comprou uma televisão, era na época um artigo de luxo e foi um momento especial na cidade quando foi instalada e todos os clientes a noite apareciam para assistir. Mas Lina para punir Tônia colocava para lavar louças e a irmã Cidinha ia ver televisão com os demais irmãos e suas avós maternas e paternas que nesta ocasião estavam passando uns dias na casa de Izaque tentavam consolar Tônia, porém as marcas da injustiça e rejeição estavam na alma de Tônia.
       O tempo passou e as surras aumentaram quase toda semana Tônia era levada ao banheiro para uma sessão de espancamento e feridas profundas na perna foram se formando até que um dia Isaque foi até a cidade próxima e pediu remédio para o médico para medicar as feridas e sob sua proteção ela foi poupada por um tempo.
       Abandonou os estudos por que foi considerada inapta para estudar e sofria de dislexia, e em 1967 houve a grande transformação na vida de Maria Antonia.

                                                                                     1967   A VIAGEM  SEM VOLTA

          Tônia nunca ouviu uma briga sequer de seus pais, viviam bem, cada qual com seu trabalho no comercio, a Revolução de 1964 havia criado muitos transtornos para os comerciantes, e Isaque e Lina estavam sentindo na pele as transformações de um novo regime no Brasil, o dinheiro era pouco, e as dívidas aumentando e os filhos não se preocupavam, moravam em uma cidade em que pouco era bastante, o amigo eram fieis e verdadeiros, não tinha nenhum tipo de preocupação e quando naquela tarde de segunda feira, Isaque anunciou na cozinha na hora do almoço que Lina iria para a capital com os filhos para arrumar emprego, pois estivera lá e comprou uma casa para abrigá-los enquanto estivessem parados e depois de um tempo ele iria também. Ficaram paralisados com aquela conversa e Lina aceitou de pronto, seu maior desejo era morar em cidade grande e agora a chance havia surgido e depois de muito falatório, todos almoçaram e Tônia olhou na porta do quarto do seu pai e ele chorava, seus olhos azuis brilhavam com as lagrimas escorrendo pelos seus olhos e não entendeu, mas uma dor de perda a assolou o coração, naquele momento percebeu que algo a mais estava acontecendo ali, porém não sabia o quê.
            O entusiasmo tomou conta de todos, Tônia estava de fora mesmo, arrumaram as malas e no próximo trem partiria para uma nova vida. A jardineira era um ônibus antigo que fazia a linha até a cidade onde passava o trem, era mês de março e um frio prematuro já fazia a noite na estação, o horário do trem era às 21 horas, mas com o atraso encostou-se à plataforma às 23 horas, embarcaram naquele trem e o som das maquinas por anos ficou no ouvido de Tônia, e seu pai não quis ir à estação se despedir da família que ele sabia que não voltaria mais. Amanheceu e os sons mudaram, eram sons de buzinas, maquinas e carros, alguns prédios já podia ser visto da janela do trem, a cidade era cinzenta, nada tinha cor, uma nevoa cobria as casas, e a plataforma da estação eram feias e tristes, as pessoas andavam de cabeça baixa e os homens olhavam com curiosidade aquela família de migrantes.

                                                                SEPARAÇÃO DE ISAQUE E LINA
            Lina conhecia bem a capital do estado, e estava eufórica com esta viagem, não tinha a menor idéia do que estava por vir, porém estavam feliz, todas as malas foram colocados em um trem de subúrbio que os levaria para a casa que Isaque havia comprado para que fossem morar em São Paulo e a primeira impressão que Tônia sentiu foi que jamais voltaria a sua terra natal, tamanho o contentamento de todos seus irmãos caçula havia ficado com Isaque para ajudá-lo no armazém e seu olhar perplexo quando todos estavam na jardineira rumo a estrada de ferro, por anos ficou na memória de Tônia. Agora estavam quase chegando à rua onde morariam e só havia um ponto comercial sem pintura, com banheiro nos fundos, com uma banheira antiga, e um chuveiro elétrico, do lado havia um poço onde seria retirada a água para consumo da família. Naquele salão comercial onde já vivia seus irmãos, foi dividido por um armário de roupas e o armário da cozinha era uma caixa vazia que os filhos haviam encontrado em uma feira livre na rua em que moravam. Com o pouco dinheiro que restou comprou alimentos para passar um mês e comprou uma cama de casal onde dormia Lina, Cidinha e Tônia. Agora o próximo passo era arrumar emprego para todos. No dia seguinte Cidinha com 16 anos conseguiu emprego em uma loja no centro da cidade e Tônia com 13 anos foi trabalhar de empregada domestica a idade não permitia algo melhor. E assim a vida foi passando devagar e sempre. Foi quando Tônia descobriu que todos os membros da família realmente não se importavam com ela, sempre que alguém aparecia para uma visita, Lina dizia que não via a hora de Tônia completar 16 anos para casá-la, já que ela era um problema para ela, e que casá-la seria um alívio. Tônia começou a ficar revoltada com a separação dos seus pais e com a forma como todos a tratavam, e, sobretudo como era rebelde, não se acostumava em usar sapatos e sandálias, insistia em andar descalça, mantinha o mesmo comportamento que tinha quando morava na sua pequena cidade e isso irritava os irmãos e a mãe e depois de um tempo saiu do trabalho como empregada e a mãe colocaram-a para cuidar da casa, lavar, passar e cozinhar. E acabou por ser mais humilhada por todos.
      Emoções muito fortes impede-me de continuar...
      Quem sabe um dia!!!
      23/01/2014

                                            

Essa é uma História real de muitas familias do sudoeste Paulista, e um memorial a minha mãe e meu pai que foram pioneiros nesta região.

Comentários

  1. MINHA HISTÓRIA É A SAGA DE UMA FAMILIA NO INTERIOR DO BRASIL EM 1900

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  2. História real de imigrantes no interior do Brasil ...
    Tradução para Inglês e Espanhol

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  3. História real de imigrantes no interior do Brasil ...
    Tradução para Inglês e Espanhol

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    Respostas
    1. Não a li por completo minha amiga, mas ficou a vontade de terminar a leitura,
      meus parabéns é uma ótima escritora, prazer imenso em conhecer teu blogger, voltarei sempre o meu abraço! Tenha uma ótima semana

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